Ferreira Fernandes

Nº de Artigos: 1571
Jornais: Diário de Notícias

21. Os velhos marinheiros e os jovens jotas

Confesso, tenho um fraquinho por alguns falsos licenciados, por outros, não. Um dos meus melhores amigos, o Vasco, forjou um curso e andou com ele pespegado ao peito como uma medalha. Aliás, esta quando a comprou disseram-lhe que era genuína. E o curso ele usava-o não só como o canudo verbal tão português, ao telefone: "Daqui é o Dr. Vasco." A licenciatura do Vasco era de corpo inteiro e fardado, do boné aos sapatos imaculados. No meio, jaquetão e calças brancas, botões e insígnias douradas e até um cachimbo, enfim, tudo que dissesse quão licenciado ele era: o Vasco inventou-se a licenciatura em capitão-de-longo-curso. O pai, tacanho mas metódico, foi da tasca ao empório comercial e, entretanto, não teve tempo para dar um curso ao filho. Dinheiro, o Vasco herdou, mas o curso, ele fez-se por si próprio. Em Periperi, lugarzinho do litoral baiano, apresentado por Jorge Amado, conheci o Vasco e as suas histórias sobre naufrágios, ataques na costa turca, cargas de ópio e uma mulher em cada porto. Ele estendeu-me o cartão: "Vasco Moscoso de Aragão - Capitão-de-Longo-Curso". Estendi o meu: "Zé - Ex-Passageiro do Paquete Vera Cruz". Mentíamos ambos (de facto, andei no Niassa). Isso, invenções pessoais, é giro. Agora, mentir prejudicando o grupo que nos fez (empresa, partido...) paga-se. Mas o socialista Ascenso Simões acha que não, diz no Twitter: "Nuno Félix é um bom quadro político. Espero que volte." Estamos assim e não devíamos.

Escrito por Ferreira Fernandes | Seg, 31 Out 2016
22. Alheira, um insulto de chorar por mais

Ana trabalhava na Ordem dos Advogados, e esta havia mudado de bastonário. Ana, também advogada, e Elina, a nova bastonária, deram-se mal. Num mundo de advogados, perdoem-me talvez a ingenuidade, a liberdade de expressão é sagrada. Enfim, talvez exagere. A liberdade de expressão é para ser defendida. Defendida, situação que num Estado de direito a ninguém cabe mais do que a advogados. Advogados que são representados pela Ordem dos Advogados. Ordem que, a ser bem nomeada, é praticada sem bastão mas com razão. Mas tudo foi desfeito pela tal querela. A funcionária Ana (advogada) e a bastonária Elina (advogada), conflituando, como é próprio do homem (incluindo as advogadas), fizeram--se isto e aquilo mas nada me interessa senão isto: Ana terá chamado "alheira" a Elina. Foi despedida, também por isso, e a Ordem dos Advogados está a ser julgada num tribunal do Trabalho por causa desse despedimento. Atenho-me ao "alheira". É um enchido glorioso. Mais do que ela só farinheira. Acresce que a visada veio de Mirandela e podia ser uma forma de a chamar como alfacinha a Santo António. Se me chamassem muamba, era relacionar a minha terra comigo, e eu chorava por mais. Mas podia ser um brasileiro a dizê-lo e muamba, neles, é contrabando. Perguntava-lhe: és aduaneiro ou tens bom gosto? Falava-lhe da fuba bem batida, de mandioca, claro, dendém e quiabos a esfiar na boca. Sei lá, talvez fosse o começo de uma bela amizade. Agora, despedir, nunca.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 26 Out 2016
23. Abrandar para ver o Piloto de todo o dia

Ah, esse grande jornal que é o pedaço de asfalto por onde vamos, abrandamos o carro e pomos a cabeça de fora! O nosso carro é a cadeira do café; o jornal é aquilo que se abre à nossa curiosidade: muita chapa batida e um corpo já com lençol por cima. Se tivermos sorte, talvez possamos ver um braço com sangue. "Viste o raio da posição do braço?", dizemos ao pendura, que também se esticou todo para espreitar. Depois, deixamos de abrandar, não dá para parar, já apitam atrás e também já tivemos a nossa dose. O Piloto é a dose perfeita, pois com acidentes de estrada não nos cruzamos todos os dias, não chegam para a nossa curiosidade. O Piloto temos. Jornal pela manhã, telejornais ao longo do dia. As doses são múltiplas mas a pílula é única e anódina: é o vazio do dizer. Só não o sabe aquele que diz, mas diz muito. Porta arrombada... Caça ao homem... Ameaçou... Usam-se palavras como punhos para tentar esconder a mão cheia de nada. O jornalismo é de moribundo e serve leitores doentes. Aquele fornece placebo a estes, para todos terem ilusão de que leem livros de aventuras. Os casos mais graves são dos que acreditam que vivem mesmo uma aventura, mas esses geralmente são os jornalistas no terreno. Ali mesmo, aponta um, naquele tanque, ele foi visto... No dia em que na berma do pinhal aparecerem jornalistas com aqueles coletes de seis bolsos da Guerra do Golfo, a GNR já tem a quem deitar a mão. Não para prender mas para internar.

Escrito por Ferreira Fernandes | Seg, 24 Out 2016
24. A República coisa pública e o que o não é

O assunto é: o IMI para os partidos! Então, hemiciclo, vamos lá decidir isto como deve ser... Não, não, senhores deputados, nada de período de debate e profundas reflexões. Por uma vez, vamos ser sinceros. A questão é simples e a motivação para o voto também. Vamos ao âmago, aos caboucos do problema. Para aquele lado, os dos partidos sem casa, ou quase... Portanto, deixem cá ver, o CDS, check, até a sede do Caldas é alugada, e o Bloco de Esquerda, que de seu só tem a sede da Rua da Palma, check, também. Pronto, um lado já está. Para o outro lado, os partidos com edifícios pelo país fora, casas ocupadas, compradas, doadas. Partidos proprietários de todo Portugal, uni-vos para aquele lado! Ora bem, temos o latifundiário PCP, o ricaço PS e o PSD das mordomias, confere. Pronto, está votado. Estão a ver como é fácil? E agora, oiçam cá, não seria melhor que o regimento das discussões e votações passasse a ser assim? Um regulamento tipo "o voto está na cara". O PAN, por exemplo, é pelas rações sem IVA. Fazia-se o levantamento exaustivo dos interesses particulares dos partidos e os dos seus deputados. O Pedro Magalhães, aquele perito de sondagens, fazia os respetivos retratos. E sabíamos logo o que cada partido ia votar. Um dia chegava para recolher os assuntos nacionais, todos já etiquetados com os previsíveis votos. Um contabilista dava os resultados e a sessão legislativa fechava no dia seguinte. Alugava-se o Palácio de São Bento.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 5 Out 2016
25. A Minha Crónica Pessoal da Revolução Cultural

Não vou falar-vos de Xu Xing, o grande paleontologista, o maior caçador de dinossauros do mundo ou pelo menos das pegadas deles. Vou falar de outro Xu Xing, também chinês mas caçador das suas próprias pegadas. O cientista ainda não tem 50, o outro, o meu, é escritor e documentarista e faz 60, neste ano. Diferença pequena mas importante para o tipo de pegadas que o escritor caça: ele já tinha 10 anos quando a Revolução Cultural começou e 20 quando ela acabou (1966-1976). Quando agora falamos dos maoistas (por causa da data redonda, 40 anos da morte de Mao Tsé-Tung), estamos a falar dos maoistas da Revolução Cultural. Um momento histórico que foi uma tragédia para os chineses e uma alucinação para uma geração mundial.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sáb, 10 Set 2016
26. A missa do iPhone 7 foi uma seca

Como a entrega dos Óscares em fevereiro, começa a ser sagrada a cerimónia do iPhone de cada vez que eles põem um número novo à frente da marca. Agora foi o sete, iPhone 7. Antes da missa de apresentação havia esse provável indício para muita emoção: 7, de sete mares... É certo que podia também ser alusão aos sete pecados mortais. Mas, aí, o número diria mais respeito ao que o consumidor podia fazer com ele: preguiça (não atender), ira (atirar o smartphone à cabeça do inspetor de impostos), luxúria (o diretor não me deixa escrever)...

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 8 Set 2016
27. A grandeza da foto que não foi feita

Na semana passada, aos 93 anos, morreu o grande fotógrafo francês Marc Riboud. Viveu os anos em que o mundo mudava de centro. A flor da jovem contra a guerra do Vietname ou as poses de Fidel estão no que o fotógrafo clicou e no que nós queremos lá pôr. Mais importantes são os seus testemunhos de um mundo que desconhecíamos e irrompia: o povo das ruas e das fábricas na China de Mao. O tempo e ter estado em lugares que se tornaram míticos aproveitaram, pois, a Marc Riboud. E fotografava também sem carga histórica: o operário, lá no alto, pintando as treliças férreas da Torre Eiffel, é beleza eterna. Mas volto a Riboud, apesar do atraso de uma semana, porque não se escreveu sobre uma sua foto fundamental. Nessas décadas em que o mundo se refazia, as sequelas eram por vezes mais violentas do que o terramoto. Foi assim no Bangladesh, em 1971 - separava-se do Paquistão. A guerra civil foi tão crua que ainda anteontem foi enforcado mais um criminoso de guerra. Em 1971, numa praça de Daca, a capital, a populaça apanhou alguns traidores. Aproveitando a presença de foto-jornalistas, mostrou-se o que se faz aos maus. Dois homens rebolavam por terra e dois homens, de pé, espetavam-lhes a baioneta. Uma foto disso ganhou o Prémio Pulitzer. Marc Riboud estava lá, mas não foi ele o premiado. Aliás, não fotografou. Porque esta é a melhor foto de Marc Riboud: virou as costas àquelas mortes porque sabia que eram feitas para a fotografia.

Escrito por Ferreira Fernandes | Seg, 5 Set 2016
28. A sério, ele disse?! Sim, ele disse

Aconteceu no país mais patriota. Patriota porque é esplendoroso. Porque soube praticar como nenhum o "do, pelo e para o povo". Porque passou ao mundo a ideia (justa e ilusória) de que poderia ser a pátria de substituição, caso a de origem falhe. E porque inventou Hollywood, a mais eficaz máquina de autopromoção que um país já teve. Os Estados Unidos, pois, também conhecido por América. Aí, pelas razões boas já invocadas e também por más - soberba, desconhecimento do outro... -, o patriotismo não se esconde. A bandeira estende-se à varanda, sem precisar de datas, e a mão leva-se ao coração, no hino. Nessa América, aos políticos perdoa-se tudo, menos a dúvida sobre "a América, em primeiro lugar" (Al Smith, o primeiro católico em presidenciais, foi esmagado, em 1928, porque se espalhou que ele tinha de dar explicações ao Papa, um estrangeiro). Agora, um candidato presidencial americano pediu a uma potência estrangeira para espionar a candidata adversária. Não foram talvez as palavras moralmente mais graves já ditas por Donald Trump, mas foram as mais suicidas de candidato. Tão incríveis que dão crédito a duas teses. Trump não quer ganhar e a sua espiral de provocações é mesmo a de um suicida pedindo que lhe interrompam a marcha para o abismo. Ou talvez ele tenha apostado na mais cínica das táticas: por maior que seja a enormidade dita, a seguinte faz esquecê-la. Não sei se repararam, uma ou outra não inviabiliza que ele ganhe.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sex, 29 Jul 2016
29. Ah, desporto, quanta ganância em teu nome!

Lembram-se da lição dos primeiros Big Brother? Não digo as histórias de pontapés, mas a lição sociológica. Os primeiros BB foram protagonizados por coitados dos zé marias, pela mesma razão que antigamente, nos testes médicos, os indígenas faziam de cobaias. Aprovados os testes com os que não tinham, passou-se para os que tinham - o BB dos Famosos. Nessa altura, já se sabia que a sem-vergonha não matava e podia até trazer alguns benefícios - entraram os ricos (remediados, enfim) e os pobres foram corridos da casa (depois, com o definhar do interesse público, voltaram). O que eu quero lembrar é que o mundo é uma batalha e estas são feitas (talvez com exceção dos cavaleiros da Távola Redonda, uns românticos) com os chefes a olhar da colina e a arraia a morrer na frente. Se a coisa corre bem, os chefes fazem a parada... É por isso que declaro a minha surpresa pela nossa representação olímpica no futebol. Para conquistar a ida para os JO do Rio de Janeiro, participaram como carne para canhão meia dúzia de jogadores excelsos, ainda agora sagrados campeões europeus. Conquista feita, para recolher os louros, manda-se uma equipa de desconhecidos. Apetece-me aplaudir: inverte-se o costume, os famosos trabalharam para os pobres! Mas sopram-me que estou a ver a coisa ao contrário e os grandes clubes é que não querem estragar o negócio e não largam mão dos seus jogadores para uma coisa que não dá dinheiro, só medalhas. Não acredito, claro.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 21 Jul 2016
30. A falta de leaders e fio de jogo

Há Cameron, como o italiano Zaza que chama a atenção sobre si com passada excêntrica e falha o penálti. Apostou no arriscado referendo, fez campanha, mal, sem a levar para a política, e perdeu. E abandonou o navio que ele próprio naufragou. Uma fraude. Há Jeremy Corbyn, travesti no seu partido como Ibrahimovic na seleção dele. Ambos radicais em grupos que consideram moles. O futebolista foi leal mas tosco no Euro, perdeu; o político foi sonso na Europa, fez por perder. Ibra conseguiu ter por prémio o que Corbyn anseia: Manchester. O clube existe e é forte, mas a cidade, farol operário, onde o jovem Engels se preparou para o verdadeiro socialismo, já não existe. Apesar disso, Corbyn agarra-se à liderança da esquerda e aponta para lá. Outra fraude. Há Boris que brilha na política como o futebolista belga Nainggolan. Não tanto pelos nomes improváveis, mas pelas cabeleiras exóticas. A seleção belga, eterna esperança falhada, voltou a sê-lo, como o ex-mayor de Londres, com tanta esperança atrás de si. E, além de desiludir, Boris revelou-se canalha: deitou os foguetes e recusou-se a apagar o incêndio que atiçou. Outra fraude. E há Farage, tasqueiro que está para a política como os hooligans russos estão para o futebol. Coerente, Farage partiu as vitrinas e, no momento da cobrança, fugiu. Quatro fraudes, pois. No futebol também as há. Só que na política britânica, no topo, não se vê nenhum Bale, Rooney, Vardy, Lafferty...

Escrito por Ferreira Fernandes | Ter, 5 Jul 2016
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