Ferreira Fernandes

Nº de Artigos: 1571
Jornais: Diário de Notícias

11. "Regresso ao Futuro" e regresso ao passado

Falou-se muito, ontem, do Regresso ao Futuro, a popular série de três filmes de ficção científica. Durante a nossa madrugada, a equipa de basebol Chicago Cubs ganhara o campeonato americano (hiperbolicamente chamado World Series, como se fosse mundial) de 2016. No Regresso ao Futuro II, o herói, Marty (interpretado por Michael J. Fox), vindo dos anos 80, viaja com a máquina do tempo a 2015, e dá-se conta de uma notícia sobre a equipa de Chicago - transmitida por holograma futurista, como se pensava, em 1985, que seriam os dias de hoje. Desde então correu o rumor de que o filme anunciou a vitória dos Cubs em 2015. A ser verdade, atrasou-se, afinal, um só ano, mas não deixa de ser uma coincidência tremenda: há mais de um século, desde 1908, os Cubs perseguiam a conquista que já parecia mais uma maldição.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sex, 4 Nov 2016
12. Desculpem lá a CPLP por fazer bem

A Guiné Equatorial, o paraíso africano, aboliu há décadas a pena de morte. Evidentemente, pois não foi colonizada por Portugal, que ainda há pouco garroteava. Felizmente para o país de Teodoro Obiang, ela teve laços culturais com Espanha que há 150 anos aboliu a pena de morte e até recebeu uma carta de Victor Hugo a saudar-lhe a civilização. Bom, agora essa Guiné Equatorial vê-se demandada por uma chusma de países de língua portuguesa para entrarem no clube dela. Peguem num mapa da pena de morte (o Google mostra). A vermelho, os países que ainda não a aboliram: e lá vêm a desonra de Timor, vermelho, cercado pela imensa Indonésia, onde não há pena de morte. Em África, Angola, a vermelho, encimada pelo Congo (Kinshasa) que não mata; Moçambique, a vermelho, apesar de ter como vizinho o doce Zimbabué; e os vermelhos Guiné-Bissau e Cabo Verde que também não aprenderam com o estendal humanista de Nigéria, Líbia, Egito... Então, ao meter na mesma fruteira essa Guiné Equatorial abolicionista, não é de temer que ela se deixe influenciar pelos da língua portuguesa, todos adeptos da pena de morte? Os pêssegos maus não podem corromper o pêssego bom? Eu gostava era de ser daltónico e ter visto tudo ao contrário no mapa do Google. Nesse caso, orgulhoso, saudaria a honra da CPLP por levar a civilização a outros. Mas, como prova o silêncio geral, não posso ser daltónico: tudo o que é português (e derivado) é mau e cheio de penas de morte.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 3 Nov 2016
13. Pai da frase "eixo do mal" vota em Hillary Clinton

Se Trump ganha, os humoristas bem podem sentir que falharam

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 3 Nov 2016
14. A Menina do Malmequer voltou para dar uma mãozinha a Clinton

Era uma menina loira e sardenta que contava as pétalas de um malmequer. Voz hesitante enquanto desfolhava, a menina trocava o seis pelo sete, chegou ao nove e, enfim, disse dez. Aí, a sua voz foi sobreposta por outra mais segura e de homem que também contava, firme e ao contrário: "Dez-nove-oito..." E, ao "zero", o anúncio televisivo a preto e branco - era 1964 - explodiu e mostrou um cogumelo nuclear. Diz-se que foi um dos anúncios eleitorais mais eficazes de sempre.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 2 Nov 2016
15. A Menina do Malmequer voltou para dar uma mãozinha a Clinton

Era uma menina loira e sardenta que contava as pétalas de um malmequer. Voz hesitante enquanto desfolhava, a menina trocava o seis pelo sete, chegou ao nove e, enfim, disse dez. Aí, a sua voz foi sobreposta por outra mais segura e de homem que também contava, firme e ao contrário: "Dez-nove-oito..." E, ao "zero", o anúncio televisivo a preto e branco - era 1964 - explodiu e mostrou um cogumelo nuclear. Diz-se que foi um dos anúncios eleitorais mais eficazes de sempre.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 2 Nov 2016
16. Solução talvez útil: acordar

Trump dá-me para tirar lições caseiras. E é assim que não entendo que, daquele episódio tão português do chefe de gabinete apanhado em mentirinha desnecessária, se tenha esquecido um colateral pormenor de 108 km. As falsas licenciaturas acabaram como deviam, em demissão, mas não é de pôr uma pedra sobre o assunto porque talvez haja mais algumas coisas a resolver. Durante o breve caso, foi referido que o tal chefe de gabinete morava em São Martinho do Porto e todos os dias um motorista com carro oficial o ia buscar lá, e lá devolver. Quatro viagens de carro e motorista, 400 km diários arredondados. A Wolgang Münchau, por exemplo, que todas as semanas aqui brilha com a sua ciência rara, eu perceberia que o Financial Times o fosse buscar todos os dias de helicóptero. Mas a um chefe de gabinete, mesmo a um de quem se supunha dono de duas licenciaturas, não entendo que não se lhe dissesse: muda de casa. Ou, no limite, sendo o valor tanto, que se engolisse a exigência de São Martinho do Porto e, nesse caso, se retirasse o convite para chefe de gabinete de secretário de Estado e o promovessem a ministro. Como a revelação apareceu de forma colateral, suspeito que haja, mais quilómetro menos quilómetro, outros chefes de gabinete e, quiçá, secretárias (e não de Estado), desencartados e lar longínquo. O Trump acima citado? Tudo a ver. Nada como os pequenos e passageiros abusos generalizados para atrair os grandes e definitivos canalhas.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 2 Nov 2016
17. Dia dos Mortos atravessado pelo Halloween

Pelo batismo foi Constantin Axinte, mas há homens que ficam cunhados pelo trabalho. Romeno (Perieti, 1897, Slobozia, 1984), ficou conhecido pelo carimbo que nas costas das suas fotos ele quis passar a ser: Costica Acsinte. Deixou um arquivo com cinco mil fotos em placas de vidro. Aqueles infinitos tons de cinzento que nos fazem o passado mais nítido do que o ainda ontem. Todos temos o bigode de um avô assim ou a mãe sob os matizes de luz de uma floresta de casuarinas. Aquele pedaço de mundo, a cem quilómetros da capital Bucareste, teve durante mais de meio século só o Costica Acsinte a fotografá-lo. Caras, corpos, fatos pobres e ricos - pessoas, só pessoas, tornadas fantasmas ou memória. As mais antigas têm uma tela tosca de estúdio ao fundo e algumas, por causa do frágil suporte das placas de vidro, já são atravessadas por riscos desconexos e manchas químicas. Uma campanha internacional está a digitalizá-las mas os donos são universais: as fotos de Costica Acsinte não têm direitos de autor, são do mundo que as quiser. A fotógrafa australiana Jane Long pegou nelas e trabalhou-as a cores e com acrescentos surrealistas. Chamou à série "A Dançar com Costica" e o site da CNN publicou-as ontem. De certo modo é o Dia dos Mortos atravessado pelo Halloween. Porque não, se temos garantida a memória? Só temos de ter medo da fantasia das bruxas se não soubermos guardar o nosso passado.

Escrito por Ferreira Fernandes | Ter, 1 Nov 2016
18. Trump, o caso clínico, e a América, a internar

Semana decrescente. Se é a tendência que conta, a campanha de Hillary Clinton tem interesse em que a semana passe depressa. Titula Nate Silver, o guru das previsões do site FiveThirtyEight: "Com Comey ou Não, Trump continua a Estreitar a Distância para Clinton". Quer dizer, ainda não se pode dizer se as sondagens já são influenciadas pelas declarações do diretor do FBI James Comey, mas Trump avança. Quer dizer, ainda mais dramaticamente: na pior das hipóteses, se a intervenção do FBI contar, as eleições já não são favas contadas para os democratas. Há 15 dias, o site dava 88% de probabilidades de Clinton ganhar, ontem, dava 75%. Os critérios de Nate Silver são complexos, não vale a pena dar os pormenores, o importante é dar conta da tendência: com os mesmos critérios, o salto de Trump é preocupante.

Escrito por Ferreira Fernandes | Ter, 1 Nov 2016
19. O FBI trouxe a habitual surpresa de outubro

Ah, os bons velhos tempos de John Edgar Hoover, patrão quase eterno do FBI (48 anos, de 1924 a 1972). Fazia-as, mas pela calada. Ele documentava os hábitos sexuais da primeira-dama Eleanor Roosevelt e a partilha de amantes entre John Kennedy e chefões da Máfia - os próprios haveriam de saber que ele sabia e Hoover fazia mesmo questão que soubessem. Aliás, cada novo inquilino da Casa Branca (e ele conheceu oito), na primeira vez que o recebia na Sala Oval, via que Hoover lhe deixava sobre a secretária um dossier. Era o que o FBI conhecia dos seus segredos. Talvez não estivesse lá tudo, talvez alguma coisa chegasse aos jornais, mas nunca se viu foi Hoover pôr a boca no trombone em público.

Escrito por Ferreira Fernandes | Seg, 31 Out 2016
20. Os velhos marinheiros e os jovens jotas

Confesso, tenho um fraquinho por alguns falsos licenciados, por outros, não. Um dos meus melhores amigos, o Vasco, forjou um curso e andou com ele pespegado ao peito como uma medalha. Aliás, esta quando a comprou disseram-lhe que era genuína. E o curso ele usava-o não só como o canudo verbal tão português, ao telefone: "Daqui é o Dr. Vasco." A licenciatura do Vasco era de corpo inteiro e fardado, do boné aos sapatos imaculados. No meio, jaquetão e calças brancas, botões e insígnias douradas e até um cachimbo, enfim, tudo que dissesse quão licenciado ele era: o Vasco inventou-se a licenciatura em capitão-de-longo-curso. O pai, tacanho mas metódico, foi da tasca ao empório comercial e, entretanto, não teve tempo para dar um curso ao filho. Dinheiro, o Vasco herdou, mas o curso, ele fez-se por si próprio. Em Periperi, lugarzinho do litoral baiano, apresentado por Jorge Amado, conheci o Vasco e as suas histórias sobre naufrágios, ataques na costa turca, cargas de ópio e uma mulher em cada porto. Ele estendeu-me o cartão: "Vasco Moscoso de Aragão - Capitão-de-Longo-Curso". Estendi o meu: "Zé - Ex-Passageiro do Paquete Vera Cruz". Mentíamos ambos (de facto, andei no Niassa). Isso, invenções pessoais, é giro. Agora, mentir prejudicando o grupo que nos fez (empresa, partido...) paga-se. Mas o socialista Ascenso Simões acha que não, diz no Twitter: "Nuno Félix é um bom quadro político. Espero que volte." Estamos assim e não devíamos.

Escrito por Ferreira Fernandes | Seg, 31 Out 2016
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