Eis-nos chegados ao dia mais importante do ano para a zona euro: o referendo em Itália sobre a reforma constitucional. Parece estranho associar o futuro próximo da moeda única a alterações à lei fundamental, mas o facto é que o cerco político está montado e o principal culpado é o próprio Matteo Renzi. Transformar um referendo como este num voto de confiança ao governo e não nos méritos da própria reforma, depois das emendas terem sido aprovadas no Parlamento (é certo que sem os dois terços necessários), é um mau princípio político e remete, como no referendo britânico, para a máximo "ou eu ou o caos". Se a lição estivesse bem estudada, Renzi não faria deste referendo um elemento existencial para si e sobretudo para o seu país, sabendo como têm sido penalizadas as narrativas do medo e premiadas as do enamoramento pelo caos. Basta recordar o brexit e a eleição de Trump. Além disso, há uma diferença substancial entre referendar a permanência numa união política e corrigir os equilíbrios institucionais num determinado sistema.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Dom, 4 Dez 2016
As últimas 48 horas mostraram uma afinação na estratégia democrata, com Hillary a focar mensagem e presença em estados onde o voto latino pode ser decisivo se mobilizável. É o caso tradicional da Florida, onde o voto latino antecipado superou em 200 mil o número de 2012, com uma predominância de não cubanos e eleitores estreantes. Não é certo que Clinton aqui vença, mas se o fizer é à demografia latina que o irá dever. Se conseguir acrescentar a Florida aos outros 18 estados que há seis eleições consecutivas votam no candidato democrata, a vitória pertence-lhe. A questão é que Michigan, Wisconsin, Pensilvânia e Minnesota não estão seguros, levando a máquina democrata até à revolta latina anti-Trump em estados habitualmente republicanos, como o Nevada, Carolina do Norte, Colorado e Arizona. Importante neste quarteto é o voto antecipado já ter atingido metade do total da participação de 2012, o que indica um compromisso mais convicto do que se pensava com a frente clintoniana. Neste sentido, Hillary pode não precisar da Florida se vencer no Nevada, Carolina do Norte, New Hampshire e Colorado. Assim, tal como Obama assentou vitórias nas minorias afro e latina, pressão que o levou a legislar e lutar contra o bloqueio do Congresso, também Clinton pode ficar a dever a vitória à surge latina. Ora, isto tem um efeito imediato, dado o sentido de proteção que essa comunidade espera, depois do ódio sofrido na campanha. A pressão justicialista que Hillary sofrerá e o peso desses votos implicam que garanta maioria no Senado e rostos políticos no topo da administração para desbloquear o diálogo com os republicanos que ainda se aproveitam no Congresso. É por isso que Joe Biden começa a ser suscitado para o Departamento de Estado e uma republicana, como Susan Collins, para a Defesa. A acontecer, poucas administrações terão um cunho tão político como a de Hillary.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Seg, 7 Nov 2016
Washington é uma boa torre de controlo eleitoral. É certo que não se vê campanha nas ruas, até porque a cidade é um baluarte democrata, o que pode parecer uma apreciação traiçoeira: há um país a mexer fora da capital e ninguém, honestamente, pode medir o pulso à campanha apurando o faro pelo que aqui vê. Mas isso não significa que Washington não permita aceder a outro tipo de análises impossíveis de obter se estivéssemos a percorrer o país. Uma delas resulta da sua natureza paroquial, de se chegar com mais ou menos facilidade a quase toda a gente relevante na política americana, trabalhe nos corredores da administração, na comunidade de think tanks ou nos media. Esta é a mais-valia de DC: medir a tensão política por dentro. Devo dizer-vos que a pulsação está acelerada, os nervos à flor da pele e a ansiedade a crescer. Não é para menos: Trump tem trabalhado bem a cumplicidade com os eleitores brancos da classe trabalhadora em estados onde têm uma palavra a dizer, como a Carolina do Norte ou o Wisconsin, e Clinton não tem outra estratégia que não a de aparecer rodeada de estrelas da política e do entretenimento, mascarando a sua notória falta de afirmação em campanha. Claro que tem a seu favor uma máquina partidária imprescindível à mobilização, lidera nos votos antecipados - importante entre afro-americanos na Carolina do Norte ou latinos na Florida - e pode beneficiar da dispersão interna entre republicanos. Mas o que faz desta eleição um momento de ansiedade extrema é a dificuldade em medir aquele eleitorado que não assume ir votar em Trump mas que na hora da verdade o fará. Esta mancha cinzenta é inquietante e traz uma tensão extra a quem não vê em Hillary qualquer rasgo que a faça descolar. Não é à toa que a Associação Americana de Psicologia diz que 52% dos adultos vivem em "stress eleitoralmente relacionado". Esta não é uma eleição igual às outras.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Dom, 6 Nov 2016
A última vez que o Senado se recusou a votar o nome escolhido pelo presidente para juiz do Supremo foi em 1875, o que reforça a ideia de que o comportamento republicano no atual tempo político é anacrónico. Os bloqueios que foram montados a Obama só por muito boa vontade encaixam na categoria de contrapesos, tal foi a lógica destrutiva que moveu a maioria republicana no Congresso. A questão é o que acontecerá se os democratas recuperarem o Senado. Uma das prioridades será dar início à audição de Merrick Garland, o juiz escolhido em março pela Casa Branca para suceder ao falecido Antonin Scalia, e que ao ser aprovado desempatará a balança de oito juízes em favor do campo liberal. Claro que se Hillary vencer pode abdicar de Garland e escolher alguém mais marcadamente à esquerda, mas isso consumir-lhe-ia tempo e desgastá-la-ia mais e este não é o momento para empreitadas desnecessárias. Mas em que é que isto é relevante para o sistema político e para o próximo presidente? Tocqueville dizia que tudo o que começa político acaba jurídico, pelo que o Supremo manterá em mãos uma série de disputas ideológicas num tempo desfavorável ao entendimento partidário. Mais importante do que tudo, dada a veterania de vários juízes, é a hipótese de nos próximos quatro anos alguns deles renunciarem e a sua substituição sintonizar a agenda do presidente com o principal tribunal do país. Claro que isto é válido para Trump como para Clinton, mas não vale a pena esconder que o trumpismo político advoga legislação contrária às liberdades individuais, direitos civis, limites ao financiamento das campanhas ou à massificação do acesso à saúde. Se a tentação for subjugar o Supremo, esvaziando a separação de poderes e abrindo uma crise constitucional, então a próxima administração não terá um segundo de paz. Esta não é mesmo uma eleição igual às outras.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Sáb, 5 Nov 2016
Fala-se pouco nela, mas a eleição para o Senado é tão ou mais importante do que a da Casa Branca. Não está a ser travada no mesmo charco e não aconchega o ângulo europeu que se entretém a pôr os ovos todos do poder na cesta presidencial, mas pode definir o modo e o alcance do exercício do próximo presidente. Uma coisa é certa, vença quem vencer, não haverá um só segundo de estado de graça, luxo que a política atual não tolera.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Sex, 4 Nov 2016
Fala-se pouco nela, mas a eleição para o Senado é tão ou mais importante do que a da Casa Branca. Não está a ser travada no mesmo charco e não aconchega o ângulo europeu que se entretém a pôr os ovos todos do poder na cesta presidencial, mas pode definir o modo e o alcance do exercício do próximo presidente. Uma coisa é certa, vença quem vencer, não haverá um só segundo de estado de graça, luxo que a política atual não tolera.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Sex, 4 Nov 2016
O caso dos e-mails só forçosamente encaixa na "surpresa de outubro", dado que há mais de três anos atormenta Hillary Clinton. A sua negligência é conhecida e escalpelizada à exaustão pela imprensa, WikiLeaks, pundits de serviço, procuradoria e por uma comissão do Congresso. Para ser uma "surpresa de outubro" teria de se aproximar da hecatombe de Wall Street que atarantou por completo John McCain em 2008; ou da emergência na Costa Leste depois da devastação do furacão Sandy (que aqui vivi na pele) e que distinguiu a coragem política entre Obama e Romney; ou do anúncio de Kissinger, em 1972, sobre a proximidade de paz no Vietname, depois de quatro anos infrutíferos de Nixon, e que acabaria reeleito com 20% de diferença sobre George McGovern. Em todo o caso, desde que as "surpresas de outubro" foram cunhadas que o seu impacto pouco alterou a vantagem já detida por um dos candidatos, o mesmo é dizer que os e-mails podem não provocar uma reviravolta a favor de Trump, até porque a apreciação de confiança (ou falta dela) em Hillary não se altera com este caso. Em bom rigor, a dinâmica de aproximação de Trump já tinha arrancado antes da carta enviada aos congressistas pelo diretor do FBI, o que significa que há um caráter enraizadamente popular e seguro em redor da natureza política de Trump. E isto é ainda mais pernicioso para os EUA. Hoje, a existir surpresa é o comportamento do diretor do FBI, que além de tocar no limite do abuso de poder e da violação da lei Hatch imiscuindo-se na campanha, justificou a reabertura da investigação com insinuações vagas e insensatas. Depois das acusações à Rússia por ciberataques - que o mesmo diretor do FBI se recusa a oficializar, mesmo partilhando o diagnóstico -, a América vive uma insubordinação no topo da investigação criminal. O pior é que depois de dia 9 a lama continuará na ventoinha.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Qui, 3 Nov 2016
Não será a memória mais fresca que teremos dos mandatos de Bill Clinton, mas vale a pena recordar que nesses oito anos os EUA lideraram nove intervenções militares: Somália (1993), Iraque (1993, 1996, 1998), Haiti (1994), Bósnia (1995), Iraque, Afeganistão, Sudão (1998) e Kosovo (1999). É certo que umas com mais enquadramento legal do que outras, algumas com menos aliados do que o desejável, todas com epílogos distintos, mas sempre de acordo com o cardápio que definiu a doutrina Clinton: punir ditadores, mudar regimes, travar limpezas étnicas, mostrar músculo militar, vincar o estatuto de "nação indispensável", contornar os vetos de terceiros no Conselho de Segurança e confirmar o triunfalismo ocidental vencedor da Guerra Fria. No essencial, este menu foi continuado nos anos de George W. Bush, com três nuances que fizeram toda a diferença.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Dom, 11 Set 2016
O congestionamento marítimo, a disputa soberanista no Pacífico e no Índico, o equilíbrio entre mercado interno e exportações, e a necessidade de alimentar energeticamente um alto crescimento económico levaram a China a pensar a sua política externa. Para organizar estrategicamente este percurso, a administração chinesa recriou a velha Rota da Seda de forma a potenciar o seu charme diplomático e contornar os imponderáveis na vizinhança próxima. Assim, em 2013, anunciou o programa mais ambicioso de diplomacia económica desde o Plano Marshall, abrangendo 65 países e 4,5 mil milhões de pessoas, equivalente a 65% da população mundial. A Nova Rota da Seda quer fazer da Eurásia o verdadeiro centro político e económico global, desviando o Atlântico do centro de gravidade nas próximas décadas. A rota terrestre sairá de Xi"an, na China, de onde partia a original Rota da Seda há dois mil anos, e percorrerá um corredor de infraestruturas rodoviárias e ferroviárias entre Urumki (capital da província chinesa de Xinjiang), Almaty (Cazaquistão), Bichkek (Quirguistão), Samarkand (Usbequistão), Dushanbe (Tajiquistão), Teerão (Irão), Istambul (Turquia), Moscovo (Rússia), Minsk (Bielorrússia) e Roterdão (Holanda). A rota marítima privilegiará grandes infraestruturas portuárias de suporte logístico ao comércio marítimo, partindo de Fuzhou, na costa chinesa do Pacífico, seguindo para Guangzhou e Haikou, no disputado mar do Sul da China, Hong Kong, Hanói (Vietname), Kuala Lumpur (Malásia), Jacarta (Indonésia), Colombo (Sri Lanka), Nairobi (Quénia), Atenas (Grécia) e Veneza (Itália).
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Qui, 1 Set 2016
Aparentemente a ideia central que sai da convenção democrata é a unidade, ou pelo menos a tentativa de projetá-la. Mas o que resulta de Filadélfia é mais do que isso. É a oportunidade de Hillary Clinton para alargar a plataforma que deu duas vitórias a Obama: minorias étnicas, jovens, mulheres e creative class, gente com educação superior, rendimentos anuais acima dos 75 mil dólares, formando um quarto do eleitorado em 2008 e onde Obama teve 60%. Para derrotar Trump, Hillary precisa também de chegar a republicanos que, apavorados com o seu candidato, não se importarão de engolir em seco e nela votar. Se olharmos para alguns dos principais oradores em Filadélfia, vimos Bernie Sanders, Bill Clinton e desiludidos do GOP como Michael Bloomberg. Dir-me-ão que Bloomberg foi um republicano (e democrata) atípico e que será difícil agradar a sanderistas e a republicanos moderados. De acordo. Mas é aqui que entra a agenda Clinton. Por exemplo, neste momento quem conquistou o establishment ideológico em segurança nacional e política externa foram os democratas, que estão a segurar quem tem peso na opinião pública sobre intervenções militares, terrorismo, dignidade das forças armadas, estabilidade das alianças e organizações internacionais. Mesmo tomado Hillary opções erráticas nalgumas destas áreas, tem sido ela a depositária desse escol, dado o delírio das tiradas de Trump. Muitos dos eleitores que habitualmente dão prioridade à segurança e à política externa viam no GOP o fórum realista dessa agenda. Trump deixou-os órfãos. E numa campanha onde um dos lados simboliza rutura institucional, disfuncionalidade hierárquica, agitação interdepartamental, vulnerabilidade externa, menosprezo negocial e até instabilidade económica, quem procura previsibilidade, estabilidade e continuidade será levado a votar Clinton. Não por convicção, mas por sobrevivência.
Escrito por Bernardo Pires de Lima | Sáb, 30 Jul 2016