Para não contribuir para agravar o sentimento de insegurança, que vai alastrando ao mesmo tempo que o modelo favoravelmente definido na Carta da ONU, e corolários legislativos consequentes, se defronta com uma realidade que deles se afasta, a semântica da desordem modera-se, falando eufemisticamente num conservadorismo de regresso. Esta atitude, que inclui não apenas partidos europeus que se afastam do projeto da União, movimentos civis que se afastam dos partidos, a visível referência à memória das soberanias que a evolução global atingiu no conteúdo, encontra talvez na radical alteração da política internacional apoiada antes em polos dominantes uma das causas da perplexidade sobre a viabilidade da recuperação da capacidade de reinventar modelos que não procurem regressos, mas sim reformulação que acompanhe a evolução global do mapa político, económico e social que ainda está em movimento descoordenado por falta de bússola.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 24 Ago 2016
Não obstante a questão da separação entre a Igreja e o Estado ser um dos temas mais dominantes do processo ocidental que evoluiu da época dos reis para a época dos povos, o primeiro com uma legitimidade do poder político procurada na transcendência e o segundo com uma legitimidade derivada da vontade popular, o certo é que, sobretudo depois do fim da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim, os principais conflitos armados que envolveram a globalidade ficaram marcados por valores religiosos. Lembremos o Kosovo (ortodoxos-muçulmanos), Cachemira (muçulmanos-hindus), Timor (muçulmanos-católicos), Chechénia (ortodoxos-muçulmanos), Próximo-Oriente (judeus-muçulmanos), Balcãs (ortodoxos-católicos-muçulmanos), Irlanda do Norte (protestantes-católicos), Afeganistão (fundamentalistas islâmicos/chiitas e muçulmanos moderados), Sudão (muçulmanos-cristãos), Chipre (muçulmanos-ortodoxos), Tibete (ateus-budistas), e finalmente o terrorismo global que, ao derrubar as Torres Gémeas de Nova Iorque, sagrou o terreno para os mártires atacantes e para os milhares de vítimas da barbaridade.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 17 Ago 2016
Pela década de sessenta do século XX ficou célebre um livro de Josué de Castro intitulado Geografia da Fome. Antigo diretor-geral da FAO, esteve então na Sociedade de Geografia, usando da palavra na Sala de Portugal, perante um auditório transbordante e atento de jovens universitários, sobre o traçado dessa fronteira entre a por vezes chamada Cidade Planetária do Norte, afluente e consumista sem diferenciação de regimes ideologicamente incompatíveis, e o Sul do Mundo em vias de descolonização global. Por então, na escala de valores internacionais era a justiça da libertação colonial que assumia o topo das pretensões, mas a ideia do desenvolvimento partilhado já circulava entre as definições utópicas de um novo mundo que daria voz a todos os povos e culturas.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 10 Ago 2016
A crise mundial económica e financeira teve, entre outras consequências negativas e preocupantes, o efeito de como que tornar menos visível o agravamento da progressiva desordem política mundial, que nesta data cresce finalmente de evidência. Uma dessas evidências traduz-se em ser cada vez mais problemática a reformulação da nova hierarquia das potências, a exigir e a provocar prognósticos sobre a alteração do quadro das potências do ontem, que foi o que vigorou até à queda do Muro de Berlim, e o da novidade, diferente e flutuante, entre mais sinais, pela frequência com que a pregada Igualdade das Nações é ferida, mesmo dentro de organizações ocidentais, como é a União Europeia, pela provocante invocação da hierarquia das potências. A questão das décimas, que ocupa o aparelho político e burocrático da organização regional que é a União, não tem hesitações em assumir e anunciar um critério respeitoso pela hierarquia dos países que oriente a distinção entre o rigor e o esquecimento.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 27 Jul 2016
A visita de Vladimir Putin à Grécia, e a atenção mundialmente despertada pela subida ao monte Athos, são factos que voltam a chamar à meditação sobre a evolução do conceito estratégico que orienta o presidente da Rússia. O regime constitucional tem-lhe proporcionado uma experiência longa no que respeita à oscilante ordem mundial, e também à rapidez com que, versado profissionalmente na arte da estratégia, tem mudado o acento tónico do projeto nacional.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 13 Jul 2016
Quando Josué de Castro obrigou a concentrar as atenções de todos os responsáveis sobre a geografia da fome, sem distinção entre povos separados pelo Muro de Berlim, não foi animado de um espírito de derrotismo, mas com esperança de que a solução do flagelo levasse à mobilização contra a realidade inquietante. Já no distante setembro de 2010, foi com uma mensagem de esperança que o incansável secretário-geral da ONU Ban Ki-moon proclamava que "os objetivos de desenvolvimento do milénio são ambiciosos mas realizáveis", não acreditando que o trajeto proposto e o objetivo assumido percorreriam antes um trajeto de utopia à fronteira agravada da pobreza, não apenas material mas também do credo dos valores.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 27 Abr 2016
É uma inquietação angustiante deste século XXI sem bússola que a chamada "maioria deserdada", segundo critérios de distribuição da riqueza, tenha sofrido a autonomização e soma dos migrantes vítimas de um mundo injustamente organizado e, por isso, mais próximo de ser ameaçado pela violência que se alimenta da falta de esperança.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 20 Abr 2016
Desde o primeiro uso das armas nucleares contra o Japão, para colocar um ponto final no combate por cada ilha, a qual implicaria uma perda acrescida e intolerável das mortes de americanos já sofridas, que o horror das consequências tornou agudo o debate internacional sobre o inevitável fenómeno da propagação de titulares do novo poder. Conhecem-se casos de transmissão ilícita de conhecimentos considerados secretos, embora a invocação da livre circulação da ciência não tenha deixado de ser invocada. Mas o que se tornou crucial no debate internacional foi o tema das consequências da posse da bomba na hierarquia das potências, e na impossibilidade demonstrada de recorrer ao segredo do saber fazer, a questão evolucionou para a criação de limitações à difusão, com um fundo de crença não comprovada de que, nesta matéria, havia Estados confiáveis e Estados não confiáveis quando à posse das armas.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 6 Abr 2016
Quando falamos em ordem mundial, o conceito é apenas jurídico, enumera a Carta da ONU e os diplomas complementares, e sobretudo as promessas de paz que se seguiram, como de hábito, no fim da guerra de 1939-1945. Esquecemos, numa data em que tantos homens tentavam esquece-las, e que os textos jurídicos não fizeram eles desaparecer as memórias, e a situação atual aconselha a começar a meditação por tal circunstância. Lembremos que a guerra de 1914-1918, iniciada por um motivo banal que foi a morte de um príncipe, culminou com a afirmação do princípio ético de Willson, segundo o qual a cada nação deve corresponder um Estado. Não se lembrou da advertência do Lorde Acton, que frequentemente cito, segundo o qual o Estado de regra precede a Nação, e não é seguro que a Nação preceda o Estado. O princípio de Willson foi acolhido com o pregado respeito pelo direito natural, mas teve uma consequência política, que não esqueceu os interesses americanos, e foi o desaparecimento dos impérios domésticos da Europa: os impérios Alemão, Austro-Húngaro, Russo, Turco, estabilizados nas fronteiras de interesses depois de séculos de lutas.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 9 Mar 2016
O incidente das estátuas pudicamente cobertas, não pelo manto diáfano da fantasia mas pela dureza da submissão revelada perante o representante político de uma potência de área cultural diferente da ocidental, o que não deixa esquecer não é uma leviandade protocolar, é sim a dificuldade crescente de impedir que a Europa, não há muito considerada a "luz do mundo", seja um passado histórico e não a voz de um novo tempo de grandezas para a casa comum dos homens que se prometeu ser o globo. Tratou-se de um incidente entre a nobre soma de países, a procurar que a União Europeia recupere uma posição na hierarquia das potências, um processo que vai mostrando as dificuldades de conciliar a memória de soberania e proeminência de cada uma com as realidades do tempo mal sabido em que vivemos.
Escrito por Adriano Moreira | Qua, 10 Fev 2016