Paulo Baldaia

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Newspapers: Jornal de Notícias | Diário de Notícias

11. Trocar ideias por afectos

A entrevista de Rui Rio à RTP informação foi tão eficaz que obrigou os adversários da sua área política a reagir. Se a crítica de Santana Lopes, que é também dirigida a Marcelo Rebelo de Sousa, se percebe, porque Santana tem razão sobre as virtudes de uma disputa saudável com várias candidaturas de centro-direita, a reacção de Marcelo é um verdadeiro "mimo". O comentador já tinha transformado sondagens em primárias ao aconselhar que quem está atrás dele desista, mas embalado pela definição dada por Rio sobre o papel do próximo presidente da República, Marcelo atira muito mais longe. Para o professor, a função é para ser "vivida com alegria", porque "se for vivida com cara de cemitério é menos bom". Porque "as pessoas fizeram um esforço pelo país, [...] temos de lhes dar mimos, temos de lhes dar carinho". Marcelo sabe do que fala, porque é o rei dos afectos e parece estar a propor-se para, a partir de Belém, ser o entertainer itinerante da nação. O comentador não esquece que está reservado ao Presidente da República um papel importante no jogo político, mas prefere reduzi-lo "à missão da gestão da situação de governabilidade e estabilidade". Depois, é assumir o papel de "fomentador da esperança dos cidadãos", "um portador de afectos".

Written by Paulo Baldaia 26 Jul, 2015
12. "Maldita" democracia

Fizemos um longo percurso para nos tornarmos mais europeus e acabamos a viver mais divididos e com nacionalismos perigosos. E para que um dia nos possamos ver livres deles outra vez, convém que não comecemos a fazer distinções entre nacionalistas. É preciso repetir à exaustão que se o Syriza representa a vontade do povo grego, também os Verdadeiros Finlandeses, o partido xenófobo na Dinamarca ou a Frente Nacional em França só existem com o voto livre dos seus povos. Ninguém se pode convencer de que os de esquerda são bons e os de direita são maus, porque eles conduzem-nos todos para o mesmo sítio, para um acantonamento que nos afasta dos outros e os outros de nós.

Written by Paulo Baldaia 19 Jul, 2015
13. Democraticamente reacionário

Em defesa da soberania dos restantes países da zona euro e em coerência com a defesa que fiz do referendo na Grécia, embora não tenha concordado com o tempo escolhido e com a pergunta opaca, parece-me inevitável que os restantes europeus também se pronunciem sobre as condições em que será feito um novo empréstimo a Atenas. Mais ainda se houver um perdão de parte da dívida. Não é possível não admirar a coragem dos gregos que recusaram o apoio nas condições em que lhes foi oferecido, correndo o risco de ficar em situação bastante mais difícil mas mantendo a dignidade de serem eles a escolher o caminho que querem percorrer. Reclamam a nossa solidariedade, mas não podem impô-la. O risco do referendo grego reside precisamente aqui, a solidariedade da União Europeia, princípio basilar da sua existência, passou a ser uma escolha de cada um dos eleitorados. Se Tsipras entrou neste jogo político, tem de aceitar que outros líderes o queiram fazer nos seus países.

Written by Paulo Baldaia 12 Jul, 2015
14. Vemo-nos gregos

Se tivesse de explicar, a um extraterrestre acabado de chegar à Terra, o que se está a passar, diria que toda a gente quer a Grécia fora do euro, mas ninguém assume a verdade. Se não é isto, é isto que parece porque ninguém estava preparado para uma guerra de mangas de alpaca contra revolucionários, em que uns julgam que o euro ficaria mais forte sem a debilidade grega e outros que os gregos ficariam mais independentes para terem a política que o Syriza prometeu.

Written by Paulo Baldaia 05 Jul, 2015
15. A espada de Tsipras

Por cá, a classe política seria mais apreciada e a abstenção seria menor, se houvesse um referendo ou eleições antecipadas cada vez que um governo tem de fazer o contrário do que prometeu em campanha, em matérias cruciais para a vida das pessoas. Tsipras faz bem em devolver a palavra ao povo grego e esta consulta popular, ao contrário do que ontem se fazia correr, não é uma verdadeira surpresa. A possibilidade de um referendo há muito que estava anunciada. Dito isto, há que estranhar o timing do anúncio e a pressa com que tem de ser feito, o que vai impedir a existência de um verdadeiro debate. Sem a ajuda da troika, a corrida aos multibancos deste fim-de-semana e aos bancos durante a semana dará um cheirinho do que pode ser a desgraça grega e isso até pode vir a funcionar contra o governo e a favor de um sim no referendo.

Written by Paulo Baldaia 28 Jun, 2015
16. Já não somos europeus

A democracia não é um privilégio nem um exclusivo da Grécia. A crise grega e a falta de entendimento entre os parceiros do Eurogrupo também não é da exclusiva responsabilidade dos gregos nem afectará apenas a eles. Podem, o primeiro-ministro e o Presidente da República, tentar sossegar-nos com o facto de estarmos preparados para aguentar uma nova crise do euro, mas é fatal como o destino que vá tudo de arrasto. A Europa não cresce, antes de mais, porque está toda sobre-endividada. É até muito provável que a dívida oculta (não propositadamente escondida, mas fora dos holofotes mediáticos) seja muito superior à dívida noticiada. Se os gregos entrarem em default toda a zona euro será vista pelos mercados mundiais como estando a falhar pagamentos devidos, e aí será novamente o "salve-se quem puder". Gostam de proclamar a democracia que elegeu o Syriza na Grécia, preparem-se porque os governos da Europa vão agir em defesa de quem os elegeu, os cidadãos dos seus países.

Written by Paulo Baldaia 21 Jun, 2015
17. Testemunho optimista

Cavaco Silva quer-nos a todos embarcados no futuro para que ele chegue rápido. Está convencido de que o optimismo tem vento suficiente para ajudar nesse caminho e diz o que um pai diz a um filho, partindo da posição confortável de se poder desresponsabilizar se não for seguida a cartilha. Como pai, Cavaco nunca aceitaria a posição que assume como Chefe do Estado. Ele sabe que quando um filho falha, falhou o pai. A verdade é que também se pode dizer a um filho, citando Miguel Torga, o que Cavaco podia ter dito a um país inteiro: "Recomeça.../Se puderes,/Sem angústia e sem pressa./ E os passos que deres,/Nesse caminho duro/ Do futuro,/ Dá-os em liberdade./Enquanto não alcances/Não descanses./De nenhum fruto queiras só metade."

Written by Paulo Baldaia 14 Jun, 2015
18. Já falta pouco

Se as eleições forem, como se imagina, a 6 de Outubro, já só temos 122 dias para reuniões, convenções, comícios, arruadas e tudo o mais que se possa imaginar. Todo este tempo, mais todo o tempo que já foi gasto, não terá a utilidade que se imaginou. O grande escrutínio que estava prometido perdeu-se nas propostas dos grandes partidos, que já andaram para trás e para a frente e que fizeram que muitos portugueses não façam a mínima ideia onde é que está cada um. Afinal quem corta o quê? Nas pensões, na TSU, na confiança, na segurança...

Written by Paulo Baldaia 07 Jun, 2015
19. A grande mentira

Não sei se o PSD e o CDS ganham eleitoralmente ao não apresentarem soluções para a sustentabilidade da Segurança Social, nem se o PS ganhará alguma coisa ao afirmar que tudo se resolverá com o milagre das rosas e a multiplicação dos postos de trabalho, mas sei que se ganharem nas urnas com estas estratégias, isso significa que o eleitorado português é muito pouco exigente. O problema é grave, persiste há muitos anos e terá de ser resolvido. Pode esconder-se a verdade numa campanha eleitoral, mas tem de se lidar com ela na governação. É claro que, para um problema desta magnitude, não há apenas uma boa solução mas o que todos sabem, incluindo PSD, CDS e PS, é que as contas não batem certo e que para aí chegar é preciso que aconteça uma de duas coisas: ou sobem a receita ou descem a despesa. E o mais certo é que seja preciso fazer as duas coisas.

Written by Paulo Baldaia 31 May, 2015
20. Fetiche eleitoral

O PS continua favorito para vencer as eleições e até podia perdê-las com a honra de assumir as grandes causas que transportam as diferentes ideologias, mas prefere arriscar a ganhá-las sem ideia nenhuma que fique para o futuro. Pode parecer que faz todo o sentido aparentar ter soluções para tudo, mas os portugueses desconfiam de tanta bonança e sabem que é preciso definir prioridades, hierarquizando os problemas e assumindo opções. A prioridade atribuída pelo PS à classe média é errada porque nem reflecte a necessidade de resolver as desigualdades sociais, nem estabelece nenhuma diferença em relação à prioridade do centro-direita.

Written by Paulo Baldaia 24 May, 2015
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