Miguel Guedes

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Newspapers: Jornal de Notícias

1. À boleia da morte

Os próximos anos serão os primeiros em que várias gerações irão ser confrontadas com a sucessão de mortes dos seus heróis e ícones culturais. De forma massiva, regular, quase quotidiana. Memórias simples atiram-nos para a alvorada da cultura pop nos anos 50 do século XX ou para o início das emissões televisivas regulares em Portugal quando a década de 60 espreitava à distância de três anos. Os anos 70 ao vivo e a cores, os anos 80 e os computadores. Entretanto, o pensamento em liberdade e a democratização cultural, a assimilação do outro e a globalização das indústrias criativas. Contas simples. Estamos perante as primeiras gerações de gente suficientemente envelhecida para poder assistir massivamente à morte informada das suas referências à escala global. É ainda muito cedo para perceber o reflexo que isso terá na visão futura das pessoas sobre a vida, a morte e a arte.

Written by Miguel Guedes 28 Dec, 2016
2. À Lagardère e outras notas

É mesmo assim, sempre a somar. Como é difícil olhar para o currículo dos últimos três directores-gerais do Fundo Monetário Internacional (FMI) sem repensar sobre o crime e sobre como ele compensa. Muito para além de qualquer jogo de coincidências, todos apresentam uma insólita nota biográfica comum, plenos e juntos como cartão de visita à liturgia da especulação financeira moderna. Rodrigo Rato, Strauss-Kahn e Christine Lagarde: nenhum escapa a processos com a justiça e expulsões técnicas, suspeitas e condenações, reconduções ou diferentes formas de perdão por negligência ou esquecimento. Assim vai o forte mundial da regulação, aquele que chamámos para que nos ajudasse a regular as contas e a reestruturar a economia. Um Fundo Monetário supostamente criado para promover a equidade económica mas que, pelo menos há 12 anos, continua a criar um padrão de saída limpa para as piores estirpes de poluição financeira em liberdade.

Written by Miguel Guedes 21 Dec, 2016
3. Que se lixe a CGD!

Porque no PSD ninguém se quer assumir em tempo de "geringonça" unida, o partido social-democrata continua a assobiar para o lado perante o descrédito crescente da liderança de Passos Coelho. "Que se lixem as eleições!", exclamava Passos Coelho perante o grupo parlamentar do partido, há pouco mais de quatro anos, durante o jantar que então assinalava o fim do ano legislativo. Agora que se sabe que o ex-primeiro ministro varreu os alertas da Inspecção-Geral das Finanças (IGF) sobre o aumento das imparidades na Caixa Geral de Depósitos (CGD) para debaixo do tapete até perto das eleições, somos confrontados com uma daquelas estórias que Passos Coelho não poderia apresentar, a pedido do arquitecto Saraiva, sem ter que pedir escusa à última hora. Uma daquelas razões pelas quais a Passos Coelho só deviam restar duas opções: pedir demissão para marinar no gelo ou anunciar a candidatura à Câmara de Lisboa para prova de fogo. Mas no PSD ninguém se chega à frente e Rui Rio só vai aparecendo de lado. Prudência, prudência, deixar de respirar até à morte política do artista. Que se lixe, pensarão os barões.

Written by Miguel Guedes 14 Dec, 2016
4. Quando o contágio é pior que a doença

A derrota de Norbert Hofer nas eleições presidenciais austríacas é uma folha de papel-da-Índia, resistente mas fina, travão de leitura da história que esteve em vias de ser contada a título de estreia: esteve por uma unha das negras a primeira conquista nacional por um líder da extrema-direita na Europa após a II Guerra Mundial. A embrulhada constitucional que ordenou a repetição das eleições foi mais um gatilho que alimentou as últimas sete sondagens antes do voto em urna, todas a darem como certa a derrota do ecologista Alexander van der Bellen, agora presidente eleito com 53,79%.

Written by Miguel Guedes 07 Dec, 2016
5. Fidel, meu querido ditador

Cai o Carmo e Varadero pelo simples facto das palavras "querido" e "ditador" coexistirem num título de crónica. Qualquer manifestação de afecto ou rejeição tem um preço que está por altura da morte, suficiente para dividir opiniões e incendiar a malta dos clássicos. Tem sido um Porto-Benfica regado a Cuba Libre. Continuar a pintar Fidel Castro a duas cores é o maior serviço que podem fazer à falta de memória colectiva. A vida de Fidel é um clássico bem mais do que "vintage" que deveria estar bem longe de se apresentar ao julgamento da actualidade como se de um réu a preto e branco se tratasse.

Written by Miguel Guedes 30 Nov, 2016
6. O contrabando dos factos

"Mas o que é isso da realidade?", a pergunta caía entre o primeiro momento do café quente e o pousar da chávena. "A realidade é um vício extremo", respondeu enquanto seguia o movimento de arrasto das empregadas na parte mais interior do bar. "Eu conheço estas pessoas, juro que conheço". Os olhos apontavam à chávena e a cabeça abana agora no compasso de uma lentidão aflitiva que pouco contrariava a fixação dos olhos. "Aparentemente as pessoas são todas iguais, sabes? E isso é mais do que suficiente para eu as imaginar nas suas pequenas diferenças".

Written by Miguel Guedes 23 Nov, 2016
7. Sobre o que há-de vir

O privilégio da incerteza é a certeza de que nada é imutável mesmo quando tantas pessoas teimam em querer construir algo de imediato para as suas vidas. Ou quando insistem tempo infinito na construção de algo que tenderá sempre à destruição. Nessas condições, a ideia de futuro não tem qualquer charme. Não há qualquer hipótese de acorrentar o futuro inapelavelmente, como se o pudéssemos amarrar pela tendência. Não sendo o que for será, o futuro está longe de ter um destino traçado. Continua refém da convicção de que vale a pena debater pelas ideias e que esse trabalho é o único que assegura alguma sustentação ou uma ideia de permanência. Sem esse trabalho, nada. Saber em liberdade é o maior garante de que estamos preparados para o que há-de vir.

Written by Miguel Guedes 16 Nov, 2016
8. Os lambe-botas da Europa

Enquanto democratas e republicanos destroem o sonho americano ao eleger Clinton ou Trump como candidatos a presidente, a Europa continua a arruinar o sonho europeu com a destreza técnica dos piores contabilistas de mercearia. Para uns, retenção de stock contada a cada vírgula do défice; para outros, vende-se fiado sem sequer anotar na folha de caixa. Quase no balanço, o presidente francês diz tudo o que não pode dizer no livro "Um presidente não deveria dizer isso", publicado por dois jornalistas do "Le Monde". Com franqueza, o lixo que se suspeitava: François Hollande mentiu sobre os valores do défice porque... pôde. Como disse Jean-Claude Juncker - "porque é a França". Mentiu porque aqueles que continuam a destruir o projecto europeu lhe permitiram tal mentira em nome do espezinhamento e pobreza do aluno português e do conto para crianças grego. A idade adulta na Europa serve-se assim: "à la carte" mas com gato por lebre.

Written by Miguel Guedes 09 Nov, 2016
9. Tudo sobre a morte

Se à festa do dia das bruxas sucede a solenidade do dia de Todos-os-Santos, já hoje se trabalha para que a morte não seja declarada como certa amanhã. Em poucas horas, presente, passado e futuro. A festa de Halloween não é muito mais do que uma gigantesca "rave party" comercial à escala das travessuras do Ocidente (com a vantagem de envolver crianças e guloseimas em horários ainda decentes). Feriado na retoma socialista, o dia de Todos-os-Santos é ainda mais assustador, velando com honra todos os santos conhecidos ou sem nome público, mártires e cristãos, num roteiro de santidade fúnebre. Foi ontem e já descansa em paz. Mas se a memória atrapalhar o decurso da história, o verdadeiro dia de finados pode começar agora, quando se inicia a contagem decrescente para as eleições americanas. Trump ultrapassa Clinton nas sondagens e não haverá som mais estridente. A nova versão da "Guerra dos Mundos" de Orson Welles lê-se em formato digital na forma de mails confidenciais adivinhados abusivamente por James Comey, director do FBI. A nova versão dos "Triunfo dos porcos" de George Orwell adivinha-se no "read my lips" de Donald Trump. Quem disse que o Halloween passou?

Written by Miguel Guedes 02 Nov, 2016
10. Rato Costa e gato Coelho

Desatar a fugir pode ser bom remédio em estados de emergência caso não estejamos acossados por um agressor armado num beco sem saída. Com um muro nas costas, o melhor é mesmo dar provas contínuas de vida. Fazer de morto contra um muro de nada vale e continua a causar-me espanto como tantas pessoas (e tantas vezes) se alinham contra muros pelo seu pé, perfilados para a fatalidade, quando podiam desatar a partir tijolo antes da construção. É também por isso que me custa compreender como pode António Costa colocar-se na posição de quem tem algo a esconder na proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2017, quebrando as mais elementares regras de transparência e informação num debate em democracia.

Written by Miguel Guedes 26 Oct, 2016
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