João Lopes

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Newspapers: Diário de Notícias

21. Uma genuína celebração

Na cerimónia dos Óscares, entre as personalidades evocadas no segmento "In Memoriam" (neste ano pontuado por uma bela versão acústica do clássico Blackbird, dos Beatles, por Dave Grohl), a Academia de Hollywood evocou um crítico de cinema: Richard Corliss, falecido a 23 de abril de 2015, contava 71 anos, com uma notável carreira ligada, em particular, às revistas Film Comment e Time. O facto transcende qualquer vício corporativo: através das suas muitas facetas, por certo pontuadas por clivagens e contradições, Hollywood concebe o pensamento sobre o cinema como um território que, longe de ser uma excrescência mais ou menos pitoresca, integra o domínio global da cinefilia. Há poucos dias, precisamente na revista Time (22 de fevereiro), Stephanie Zacharek, herdeira profissional de Corliss, propunha uma reflexão sobre "aquilo que os Óscares deste ano dizem sobre a América". A sua interessantíssima argumentação desembocava no filme Creed: o Legado de Rocky (que valeu a Sylvester Stallone uma nomeação para melhor ator secundário), definindo-o como "o mais americano" dos títulos lançados ao longo de 2015: "Se Creed tivesse tido uma nomeação para melhor filme do ano, teria sido o mais capaz de mostrar onde está atualmente o nosso país, em particular qual o aspeto das nossas cidades - passa-se numa Filadélfia nada turística, enérgica mas ainda agreste nas suas margens - e quem realmente nelas habita."

Written by João Lopes 01 Mar, 2016
22. A crise audiovisual da Europa

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, marcou para 23 de junho um referendo sobre a permanência do seu país na União Europeia. Qual a relação deste gesto com a situação do audiovisual europeu? Diretamente, nenhuma. Em todo o caso, dá que pensar o facto de os graves problemas que afetam a unidade político-económica do nosso continente raras vezes motivarem alguma reflexão sobre o estado do cinema e da televisão na Europa.

Written by João Lopes 21 Feb, 2016
23. Memórias que vêm do Chile

A obra cinematográfica do chileno Patricio Guzmán (n. 1941) está marcada pelas memórias de Salvador Allende, do golpe de Estado de Augusto Pinochet que derrubou o seu governo democrático e, enfim, da sangrenta ditadura militar (1973-1990) que se seguiu. Ele é, aliás, autor de um título de referência sobre todas essas convulsões históricas, A Batalha do Chile (1975-79), bem como do documentário Salvador Allende (2004).

Written by João Lopes 14 Feb, 2016
24. Elogio do espaço e do tempo

Não sei se, ao realizar o seu filme Quarto, Lenny Abrahamson pensou na obra-prima de Robert Bresson, Fugiu Um Condenado à Morte (1956), sobre um resistente francês numa prisão nazi. Em qualquer caso, apetece dizer que há qualquer coisa de bressoniano no trabalho de Abrahamson: o reduzido espaço onde Jo e Jack estão retidos apresenta-se como um cenário que importa não descrever de um ponto de vista exterior, mas sim habitar a partir do interior, em estreita cumplicidade com as limitações impostas ao olhar das personagens.

Written by João Lopes 11 Feb, 2016
25. Elogio do espaço e do tempo

Não sei se, ao realizar o seu filme Quarto, Lenny Abrahamson pensou na obra-prima de Robert Bresson, Fugiu Um Condenado à Morte (1956), sobre um resistente francês numa prisão nazi. Em qualquer caso, apetece dizer que há qualquer coisa de bressoniano no trabalho de Abrahamson: o reduzido espaço onde Jo e Jack estão retidos apresenta-se como um cenário que importa não descrever de um ponto de vista exterior, mas sim habitar a partir do interior, em estreita cumplicidade com as limitações impostas ao olhar das personagens.

Written by João Lopes 11 Feb, 2016
26. A dança da felicidade

No cinema, como o próprio Edgar Pêra reconhece, a noção de "experimentalismo" pode ser uma armadilha. Acima de tudo, creio que não faz sentido usá-la como caução para definir algo que estaria "à frente" de qualquer outro trabalho rotulado de mais tradicional ou apenas desfrutando de maior evidência mediática. Por mim, confesso, há muitos anos que reconheço em alguns produtos vindos do coração de Hollywood uma invenção e um sentido de risco infinitamente mais ricos do que certas "vanguardas" que disfarçam mal o seu academismo e autocomplacência.Isto para dizer que Lisbon Revisited, seja qual for o rótulo que lhe queiramos colocar, constitui uma fascinante experiência de cinema. A sua revisitação das palavras de Fernando Pessoa atrai uma estranheza (que se entranha, como diria o poeta) capaz de integrar um desarmante efeito de reconhecimento: vamos identificando algumas referências emblemáticas da cidade de Lisboa, ao mesmo tempo que a dança feliz das imagens e dos sons (Pêra é também, à sua maneira, um obsessivo cineasta da escuta) nos projeta num universo alternativo e libertador. Dizer que Lisbon Revisited desafia as fronteiras convencionais de documentário e ficção, sendo verdade, acaba por ser francamente insuficiente. Porquê? Porque estamos para além de um cinema estruturado por géneros ou temáticas. Este é um objeto cinematográfico consciente da impossibilidade de "reproduzir" o que quer que seja, apostado antes em viver, pensar e repensar o que pode resultar da relação de um olhar humano com a herança de um poeta. Mais ainda: em tal projeto, o 3D não é um gadget, mas um genuíno instrumento filosófico: vemos o que dizemos ver ou imaginamos o que julgamos ver? A experiência envolve--nos numa surpresa tecida de serenidade.

Written by João Lopes 10 Feb, 2016
27. A dança da felicidade

No cinema, como o próprio Edgar Pêra reconhece, a noção de "experimentalismo" pode ser uma armadilha. Acima de tudo, creio que não faz sentido usá-la como caução para definir algo que estaria "à frente" de qualquer outro trabalho rotulado de mais tradicional ou apenas desfrutando de maior evidência mediática. Por mim, confesso, há muitos anos que reconheço em alguns produtos vindos do coração de Hollywood uma invenção e um sentido de risco infinitamente mais ricos do que certas "vanguardas" que disfarçam mal o seu academismo e autocomplacência.Isto para dizer que Lisbon Revisited, seja qual for o rótulo que lhe queiramos colocar, constitui uma fascinante experiência de cinema. A sua revisitação das palavras de Fernando Pessoa atrai uma estranheza (que se entranha, como diria o poeta) capaz de integrar um desarmante efeito de reconhecimento: vamos identificando algumas referências emblemáticas da cidade de Lisboa, ao mesmo tempo que a dança feliz das imagens e dos sons (Pêra é também, à sua maneira, um obsessivo cineasta da escuta) nos projeta num universo alternativo e libertador. Dizer que Lisbon Revisited desafia as fronteiras convencionais de documentário e ficção, sendo verdade, acaba por ser francamente insuficiente. Porquê? Porque estamos para além de um cinema estruturado por géneros ou temáticas. Este é um objeto cinematográfico consciente da impossibilidade de "reproduzir" o que quer que seja, apostado antes em viver, pensar e repensar o que pode resultar da relação de um olhar humano com a herança de um poeta. Mais ainda: em tal projeto, o 3D não é um gadget, mas um genuíno instrumento filosófico: vemos o que dizemos ver ou imaginamos o que julgamos ver? A experiência envolve--nos numa surpresa tecida de serenidade.

Written by João Lopes 10 Feb, 2016
28. O marketing contra o cinema

A promoção do cinema atingiu dimensões espetaculares. Vivemos um tempo em que, todos os dias, somos bombardeados por uma avalancha de imagens e mensagens trabalhadas para suscitar o nosso interesse por alguns filmes (há-os também que, paradoxalmente, chegam às salas quase sem promoção, mas não é essa a questão destas linhas). Resta saber se as formas dominantes de marketing resultam de um genuíno entendimento das características de cada filme ou se, pelo contrário, decorrem de meros automatismos que, em última instância, ignoram aquilo que os filmes são, quais as suas narrativas, que matrizes espetaculares exploram.

Written by João Lopes 07 Feb, 2016
29. Órfãos do romantismo

Os telhados de Paris. Um par que se beija numa varanda. As figuras duplicadas no vidro de uma janela. Foi uma das imagens que me vieram à memória quando soube da morte de Jacques Rivette (dia 29, contava 87 anos). Pertence a O Amor Louco (1969), filme em que convergem diversos elementos que, por assim dizer, definem a sensibilidade de uma época: a memória próxima e desencantada do Maio de 68; a sedução de um romantismo órfão do seu próprio classicismo; a cumplicidade entre aquilo que as personagens vivem no palco e nos bastidores; a paixão pela fotografia a preto e branco, não como símbolo de qualquer revivalismo chique, antes como laço técnico e afetivo com o primitivismo de um cinema que não desiste de registar as angústias do nosso viver; enfim, o título roubado ao livro de André Breton (publicado em 1937).

Written by João Lopes 31 Jan, 2016
30. Reescrito no vento

Quando Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) se conhecem, no grande armazém em que a segunda trabalha, tudo as separa: a classe social, o comportamento público, o porte, as roupas, a gestão do tempo... E, no entanto, algo acontece que, na efémera suspensão de um olhar, envolve já uma radical intimidade - Todd Haynes filma o impulso amoroso como uma ferida irreparável na ordem do mundo.

Written by João Lopes 31 Jan, 2016
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