João Lopes

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Newspapers: Diário de Notícias

1. A inteligência artificial ou o nascimento de um novo humanismo

Em Portugal, a normalização narrativa imposta pelas telenovelas restringiu de forma dramática o espaço (e o gosto) de reflexão em torno das histórias audiovisuais. Ao contrário do que aconteceu noutros tempos (pré e pós-25 de Abril), é muito difícil que um filme desencadeie qualquer debate genuinamente social - uma coisa é pensar com um filme e através dele; outra, bem diferente, é sermos acossados pelo alarido mediático apenas porque um filme tem um super-herói como personagem central ou exibe o nome de J.K. Rowling no genérico.

Written by João Lopes 04 Dec, 2016
2. A arte do assombramento

Há um lugar-comum que promove o espetáculo cinematográfico como misto de artifício e pompa vivido na sala escura. O lugar-comum é verdadeiro (até porque ver filmes em ecrãs de computador faz parte do nosso mais triste masoquismo cultural), mas francamente insuficiente. Um grande filme não se define apenas pelo seu grau de surpresa - um grande filme entranha-se na consciência, avisando-nos de que temos um inconsciente onde se travam as guerras de uma cruel economia afetiva e simbólica.

Written by João Lopes 23 Nov, 2016
3. Os lugares tranquilos de Peter Handke

As palavras servem para procurar a nossa própria história

Written by João Lopes 06 Nov, 2016
4. A inteligência das formas

Não será por acaso que o Mestre de Doutor Estranho é um Ancião que, afinal, é uma Anciã (ambiguidade que a língua inglesa contorna com a habitual frieza: The Ancient One). Que essa personagem seja interpretada pela especialista de todas as ambiguidades que é Tilda Swinton, eis o que sinaliza de modo exemplar a trajetória do herói: para além de qualquer diferença sexual, até mesmo para além de qualquer diferença humana, a sua saga tem que ver com aquilo de que não é possível sair. A saber: o Tempo (com maiúscula, se me permitem, já que convém mantermos alguma pompa face a tão extremo desafio).Há outra maneira de dizer isto e é surpreendentemente simpática para o filme que entroniza o sempre brilhante Benedict Cumberbatch no país dos ordenados com, pelo menos, sete algarismos (nada conta, caro Sherlock): por uma vez, os estúdios Marvel esforçaram--se na fabricação de algo mais que imagens de telemóvel que já ninguém vê (e sons ensurdecedores cada vez mais difíceis de suportar), sabendo tirar partido das atribulações de um herói que vive numa paisagem que celebra, ponto por ponto, os poderes do próprio espetáculo do cinema. A saber: a ligação festiva de qualquer espaço com qualquer outro espaço e essa vertigem temporal que nos arrasta e liberta como um jogo de vídeo, desta vez deliciosamente filosófico.Até mesmo o cliché do "filme de efeitos especiais" adquire, aqui, uma inesperada justeza. Mais do que um fogo-de-artifício mais ou menos vistoso, assistimos a um trabalho de manipulação das linhas e dos volumes que volta a celebrar o ecrã como uma janela para todos os mundos alternativos que nos atrevermos a imaginar. A inteligência das formas é sempre um valor mais que estimável. E é bom que, no seio da poderosa Marvel, ainda haja quem não o tenha esquecido.

Written by João Lopes 26 Oct, 2016
5. A natureza nunca existiu

Perante a singular beleza de um filme como O Ornitólogo, importa começar por sublinhar o mais básico. O realizador João Pedro Rodrigues é criador de um universo que existe como um continente autónomo e mágico, inclusive através dos títulos em que tem partilhado a realização com João Rui Guerra da Mata (aqui presente, de novo, como coargumentista e responsável pela direção artística). Estamos perante um universo enraizado numa pulsão realista, paradoxal e envolvente, exemplarmente assumida pelo trabalho de direção fotográfica de Rui Poças.Daí a insólita sinopse desta aventura por terras e águas de Trás-os-Montes. Fernando (Paul Hamy), o estudioso dos pássaros, começa por ser aquilo que qualquer filme que se preze oferece (e retira) ao seu espectador. A saber: um olhar sem equivalente, pessoal e intransmissível como os passaportes, que nos convoca para a descoberta de uma natureza tecida de inusitadas cores e secretos sons. A pouco e pouco, ele descobre (e nós com ele, hesitantes e fascinados) que não há nada de natural na natureza.Tudo se passa como se a natureza nunca tivesse existido. Fernando vai vivendo e sobrevivendo como incauto figurante de uma odisseia em que tudo pode ser novo e revelador, desde as convulsões do sexo às intromissões do sagrado, porventura equivalendo-se nesse país sem fronteiras que é o próprio cinema. Será preciso acrescentar que, à sua maneira, O Ornitólogo, é também um filme de resistência? A quê? Ao naturalismo pueril dos nossos tempos televisivos. Em nome de quê? De um gosto de olhar e escutar que celebra o cinema como arte de libertação das evidências. Questão radical, enredada no labirinto do rio Douro? Sim, sem dúvida. Nele redescobrimos o esplendor da tragédia. E também os seus esquecidos humores.

Written by João Lopes 18 Oct, 2016
6. A propósito de educação

Segundo a lista oficial do Instituto do Cinema e do Audiovisual, João Botelho tem um dos seus filmes (Os Maias, 2014) no 13.º lugar das produções portuguesas mais vistas no período 2004-2016. E, no entanto, o seu discurso sobre o cinema não envolve nenhuma celebração simplista dos números das bilheteiras. Estamos longe, portanto, de qualquer preconceito, pró ou contra, face à eventual grandeza de tais números: afinal de contas, como ele recorda, é verdade que Tubarão (1975), de Steven Spielberg, foi um momento decisivo na mais brutal reconversão dos mercados cinematográficos de todo o mundo, mas isso não impede que Tubarão seja um "grande filme" (eu, em todo o caso, concordo com ele).Botelho convoca-nos para um retorno ao cinema que supere qualquer visão banalmente economicista dos filmes, sua produção e difusão. A lição colhida em Manoel de Oliveira, condensada no belo filme que agora se estreia - exemplarmente intitulado O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu -, consiste, como ele sublinha, em valorizar sempre o ato de filmar como um acontecimento enraizado no domínio da moral. Daí que ele arrisque a palavra "educação" para descrever o domínio último em que o cinema também se afirme e existe.Permito-me sublinhar essa palavra. E propor uma extrapolação pessoal. Porquê? Porque, a meu ver, o populismo audiovisual dominante impôs uma ideologia da ligeireza e da irresponsabilidade que quer fazer crer que a nossa relação com imagens e sons é um assunto sem importância, fútil e descartável. Discutir o poder educacional dessas imagens e desses sons não é dividir os cineastas portugueses entre os que fazem e os que não fazem "dinheiro". É tão-só não menosprezar o facto de a identidade de um país, qualquer país, passar sempre pelas suas narrativas.

Written by João Lopes 13 Oct, 2016
7. A invenção televisiva de Donald Trump

A escolha de Hillary Clinton ou Donald Trump está longe de ser uma questão interna dos EUA - o desenlace da sua corrida eleitoral afetará, de uma maneira ou de outra, a geopolítica planetária. Prova esclarecedora da gravidade do assunto: nesta sexta-feira, o USA Today (o jornal de maior circulação nos EUA) quebrou a tradição de neutralidade face às eleições presidenciais (desde a sua fundação em 1982) e publicou um texto em que o respetivo conselho editorial explica porque considera Trump "inadequado para a presidência".

Written by João Lopes 02 Oct, 2016
8. A linguagem já não é o que era

Provavelmente, a culpa é de René Magritte. Em 1929, o surrealista belga desenhou o seu célebre cachimbo e, num gesto de ambígua inocência, acrescentou-lhe a perturbante legenda: "Isto não é um cachimbo." Brincando com a nossa crença naquilo que vemos, claramente visto, chamou mesmo ao seu quadro A Traição das Imagens.

Written by João Lopes 05 Sep, 2016
9. A "razão" cultural das multidões

Segundo uma notícia publicada em The Hollywood Reporter (2 de agosto), circula na net uma petição contra o site Rotten Tomatoes (rottentomatoes.com). Motivo? Nos seus conteúdos, há uma abundância de críticas negativas a Esquadrão Suicida, filme de super-heróis há poucos dias lançado em todo o mundo.

Written by João Lopes 08 Aug, 2016
10. A arte de sentir o tempo

Que histórias contam os filmes? Eis a pergunta mais redutora para abordar um filme, qualquer filme. Claro que quando pensamos, por exemplo, num clássico como Lawrence da Arábia (1962), ninguém será indiferente ao misto de epopeia e tragédia que envolve a personagem de T. E. Lawrence. O certo é que o essencial se joga através do modo de contar de David Lean, símbolo de um cinema cujas singularidades (sentido do espaço, organização do tempo, composição de cada imagem, etc.) estão para além da mera "ilustração" de factos mais ou menos conhecidos.

Written by João Lopes 17 Jul, 2016
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