Anselmo Borges

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Newspapers: Diário de Notícias

1. Natal. Traduções da Bíblia

1 "A Bíblia é o poema colectivo mais longo criado até agora pela humanidade. Nele se espelham as várias batalhas que os homens engendram na sua demanda pelo amor absoluto. Não admira que a literatura ocidental nele tenha encontrado os seus modelos de narração amorosa mais fortes e que os seus mitos continuem a servir de moldura para o pensamento em torno da liberdade e da paz" (Lídia Jorge).

Written by Anselmo Borges 24 Dec, 2016
2. A revolução de Francisco: "Sou amado, logo, existo"

1. Na perspectiva grega, o decisivo é conhecer a essência, por exemplo, o que é Deus? Na perspectiva hebraica, no que a Deus se refere, a perspectiva é outra: o que é que acontece quando Deus está presente? Foi assim que João Baptista, na prisão, mandou discípulos perguntar a Jesus se era ele o Messias. Jesus não deu nenhuma resposta teórica. Deviam eles próprios descobrir a verdade a partir do que viam que estava a acontecer: "Ide contar a João o que estais a ver e a ouvir: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a boa notícia." O Messias verdadeiro é aquele que está presente em nome de Deus a aliviar os tremendos sofrimentos das pessoas, a abrir horizontes de esperança para todos, sobretudo para os pobres e abandonados. Jesus está aí, libertando da opressão e da indignidade, anunciando e realizando um mundo novo de alegria e dignidade para todos. Ele é o enviado pelo Deus compassivo, que sara e cura as feridas e liberta a vida: "Sede misericordiosos como o vosso Pai celeste é misericordioso." Mais do que dogmas e doutrina, o decisivo no cristianismo é a prática libertadora.

Written by Anselmo Borges 16 Dec, 2016
3. Últimas Conversas.Testamento de Bento XVI. 2

A convite de João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger aceitou em 1981 ser Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com uma condição: continuar a publicar livros. "Porque sentia a obrigação interior de poder dizer algo à humanidade". Gostaria de ter dedicado a vida à "teologia científica". "Todos os escândalos chegam à Congregação". "Que na Igreja há porcaria é conhecido, mas o que o Prefeito da Congregação tem de digerir vai muito para lá". Fez questão em não misturar a sua teologia com os documentos da Congregação: não foi ele, por exemplo, que redigiu a Dominus Jesus, sobre a unicidade da Igreja católica. Confessa que "está feliz com as reformas do Concílio, quando são acolhidas com honestidade, na sua substância." Mas "cada vez mais pessoas perguntavam: a Igreja ainda tem uma doutrina comum? Ora, tenho a convicção de que também hoje devemos estar à altura para dizer o que é que a Igreja crê e ensina".

Written by Anselmo Borges 26 Nov, 2016
4. Sofrimento, medicina e o transcendente. Homenagem a João Lobo Antunes

Para um dos colóquios Igreja em Diálogo, sobre "Religião e (In)felicidade", também convidei o professor João Lobo Antunes, para falar precisamente sobre "Sofrimento, medicina e o transcendente". Mandou-me o texto da conferência, que ainda não publiquei. O que aí fica é um brevíssima síntese, que é, julgo, a melhor homenagem que posso prestar ao amigo, médico de fama mundial, professor ilustre, homem da cultura, mestre da escrita, humanista, cristão.

Written by Anselmo Borges 05 Nov, 2016
5. A Igreja e os direitos humanos

1 Em jornais espanhóis do século XIX, apareciam anúncios assim: "Vende-se uma pretita de 9 anos, natural de Havana, sã e sem manchas, que passou os testes da varicela e do sarampo, ágil, com boa presença e disposta a aprender toda a espécie de trabalhos"; "vende-se com equidade uma negra de 30 anos, robusta, fiel e trabalhadora, sabe fazer todas as lides de uma casa". Leio esta informação em L. González-Carvajal, que vou seguir, no seu Curso de Moral Social. Como foi possível a gente vender gente? 2 Foi lentamente que se tomou consciência da dignidade sagrada de todos os seres humanos. A Igreja institucional não foi de modo nenhum exemplar, mas é preciso reconhecer que essa consciência se dá com base também, e fundamental, no Evangelho, ao declarar que todos são filhos de Deus. E há o Génesis, dizendo que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Nesta marcha lenta dos "direitos fundamentais do Homem", encontramos múltiplos indícios, ainda antes da modernidade. Assim, há quem queira ver um antecedente na famosa Oração Fúnebre de Péricles. Depois, na Idade Média, deparamos com a Magna Charta Libertatum, 1215. Com a Declaração de Direitos (Bill of Rights) do Bom Povo de Virgínia, de 1776, e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, adoptada pela Assembleia Nacional Francesa em 1789, assistimos a um salto, mas, de qualquer modo, visavam apenas determinadas categorias de pessoas. Diferente é a Declaração Universal de Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1948, em Paris. Dos 48 Estados então representados nas Nações Unidas, nenhum votou contra, 40 votaram a favor, oito abstiveram-se: os seis países comunistas, a África do Sul e a Arábia Saudita. Nos artigos 1 e 2, lê-se: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos" e podem invocar os direitos e liberdades desta Declaração, "sem distinção alguma de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou qualquer outra situação". Numa vinheta de 1998, no El País, aparece o próprio Deus a exclamar: "Que preâmbulo! Não tinha lido nada de tão bom desde o Sermão da Montanha." A Declaração foi sendo completada com dois pactos: o Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, que entraram em vigor em 1976. Há quem pense que "estes convénios poderiam, com a Carta das Nações Unidas, ser o gérmen de uma futura Constituição universal". 3 Quatro notas dos direitos humanos: são direitos atribuídos a todo o ser humano pelo simples facto de o ser. São, pois, direitos naturais (os Estados não os concedem, apenas os reconhecem), invioláveis, inalienáveis, universais. Segundo uma fórmula proposta por Karel Vasak, agrupamo-los em "três gerações": a) A primeira geração, sob o nome de "liberdades" (liberdade de consciência, de expressão, de imprensa, de associação, de religião...); b) Desde o século XIX, reivindicação de direitos com a palavra "libertações": Pacto Internacional de Direitos Sociais, Económicos e Culturais; c) Direitos de terceira geração: os que têm como titulares os povos e inclusivamente a humanidade inteira: direito ao desenvolvimento, direito a um meio ambiente são, direito à paz, direito à identidade cultural; d) E já se fala na quarta geração: note-se que a Declaração Universal não é "dos", mas "de" Direitos Humanos, portanto, não estão lá todos. 4 Na fundamentação dos direitos humanos, encontramos inevitavelmente as famosas afirmações de Kant: "Tudo no mundo tem um preço; só o Homem tem dignidade." "O Homem é fim, e nunca meio ou instrumento; portanto, independentemente da sua maior ou menor utilidade, reclama um respeito incondicional." Kant está a falar da liberdade enquanto autoposse, que nos distingue das coisas e dos animais e se explicita na consciência do dever. Para ser fim, o Homem tem de ter nele algo de absoluto, incondicional, infinito...Vejo a prova desse infinito no facto de ele, frágil e finito, colocar, pela sua própria constituição e independentemente da resposta que lhe dê, positiva ou negativa, a pergunta ao Infinito pelo Infinito, se se quiser, a pergunta a Deus por Deus. Então, se tem algo de infinito em si mesmo, que é a pergunta pelo Infinito, o Homem é fim, pois, para lá do Infinito, não há mais nada. 5 E a Igreja? Não faltaram condenações de Pio VI a Pio IX, passando por Gregório XVI, que condenou o indiferentismo, donde brota "aquela absurda e errónea loucura que afirma e defende a todo o custo e para todos a liberdade de consciência". Pio IX, entre outras coisas, condenou o sufrágio universal a liberdade religiosa e a liberdade de pensamento e imprensa. Felizmente, desde João XXIII, a Igreja tornou-se sua defensora acérrima, mas ainda falta caminho para cumpri-los todos no seu próprio seio.

Written by Anselmo Borges 18 Jun, 2016
6. A resistência a Francisco

1. Algo mudou quanto à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados? De regresso de Lesbos, Francisco foi claro: "Eu posso dizer: sim. Ponto." Quem tivesse dúvidas quanto a mudanças nesta e noutras questões teria, na oposição de muitos da alta hierarquia, a prova de que elas são reais.

Written by Anselmo Borges 04 Jun, 2016
7. A resistência a Francisco

1. Algo mudou quanto à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados? De regresso de Lesbos, Francisco foi claro: "Eu posso dizer: sim. Ponto." Quem tivesse dúvidas quanto a mudanças nesta e noutras questões teria, na oposição de muitos da alta hierarquia, a prova de que elas são reais.

Written by Anselmo Borges 04 Jun, 2016
8. A Alegria do Amor. 2

1 A Exortação A Alegria do Amor, do Papa Francisco, é isso: um hino ao amor. Cita, por exemplo, M. Benedetti: "Se te amo, é porque és/o meu amor, o meu cúmplice e tudo/e na rua, lado a lado,/somos muito mais do que dois." Sobre o prazer erótico no amor, cita J. Pieper: por um momento, "sente-se que a existência humana foi um sucesso". Mas Francisco conhece o coração humano, a sua exaltação e as suas misérias e há as pulsões e o amor e as histórias de cada um. Por isso, aponta ideais, mas conhecendo a realidade e falando para pessoas concretas, criticando os que na Igreja "agem como controladores da graça e não como facilitadores".

Written by Anselmo Borges 23 Apr, 2016
9. A Alegria do Amor. 1

1- Era um texto muito aguardado do Papa Francisco. Depois de dois Sínodos, em 2014 e 2015, sobre a família, antecedidos de algo inédito - Francisco quis saber, com consultas em todo o mundo, o que pensam os católicos sobre as problemáticas relacionadas com a família, desde a crise profunda que atravessa às uniões entre pessoas do mesmo sexo e à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados -, o Papa teria a última palavra, num documento seu, tendo em conta os resultados dos Sínodos. Acaba de ser publicado, com o belo título A Alegria do Amor. Uma Exortação Apostólica, com mais de 200 páginas e 325 pontos. O seu fio condutor é a misericórdia, ao encontro das pessoas em dificuldade. Não muda a doutrina, mas exige uma nova pastoral, de tal modo que o cardeal W. Kasper não se sentirá completamente defraudado ao ter previsto que "o documento assinalará o início da maior revolução na Igreja dos últimos 1500 anos".

Written by Anselmo Borges 16 Apr, 2016
10. A paixão e a política

Pascal observou agudamente nos Pensamentos: "Jesus estará em agonia até ao fim do mundo; é preciso não dormir durante este tempo." Todos sabemos do "calvário" do mundo, e as personagens são as mesmas.

Written by Anselmo Borges 19 Mar, 2016
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