Ana Sousa Dias

No. of Articles: 82
Newspapers: Jornal de Notícias | Diário de Notícias

1. Se o mundo acabou, não leia esta crónica

Se está a ler este texto, o mundo não acabou hoje ou, pelo menos, ainda não acabou. É verdade que esteve para acabar há uma semana, naquele dia da lua de sangue com eclipse. O apocalipse está a fazer-se difícil e ainda bem, porque tenho muitas coisas para fazer. Já esteve anunciado tantas vezes que um dia o mundo vai mesmo acabar e não tomámos as medidas adequadas e derradeiras. Ele foi na passagem do século XIX para o XX, foi na(s) passagem(ns) do cometa Halley, foi na dobra do milénio, foi a 11 de maio de 2011, foi a 27 de setembro, o do eclipse da lua vermelha. Mas afinal é hoje. Como estou a escrever na terça-feira, pode ser que esteja a errar redondamente ao dizer que o mundo não acabou, mas não vai haver ninguém para me acusar de dizer falsidades. A menos que sobreviva alguém num bunker à prova de fogo (desta vez o fim do mundo é com fogo), daqueles com muitas reservas de água potável e latas de conservas. Acho que não fui escolhida para sobreviver, ninguém me falou nisso.

Written by Ana Sousa Dias 07 Oct, 2015
2. Se o mundo acabou, não leia esta crónica

Se está a ler este texto, o mundo não acabou hoje ou, pelo menos, ainda não acabou. É verdade que esteve para acabar há uma semana, naquele dia da lua de sangue com eclipse. O apocalipse está a fazer-se difícil e ainda bem, porque tenho muitas coisas para fazer. Já esteve anunciado tantas vezes que um dia o mundo vai mesmo acabar e não tomámos as medidas adequadas e derradeiras. Ele foi na passagem do século XIX para o XX, foi na(s) passagem(ns) do cometa Halley, foi na dobra do milénio, foi a 11 de maio de 2011, foi a 27 de setembro, o do eclipse da lua vermelha. Mas afinal é hoje. Como estou a escrever na terça-feira, pode ser que esteja a errar redondamente ao dizer que o mundo não acabou, mas não vai haver ninguém para me acusar de dizer falsidades. A menos que sobreviva alguém num bunker à prova de fogo (desta vez o fim do mundo é com fogo), daqueles com muitas reservas de água potável e latas de conservas. Acho que não fui escolhida para sobreviver, ninguém me falou nisso.

Written by Ana Sousa Dias 07 Oct, 2015
3. Já estive perto do Supermorcela

Já estive bastante perto de um super-herói. Pensei que era o Batman mas não, e até sei que ele não gosta de ser confundido com o morcego. Isto porque há uns dias um pai apontou ao filho "olha, está ali o B" (não digo o resto para não ser desagradável), e o miúdo olhou mas já o B estava a dizer: "Não sou o Batman, sou o Supermorcela", e estendeu um cartão-de-visita, por sinal bem giro. É fácil confundi-los, porque se vestem de preto e usam uma máscara e uma capa mas, como o dito pai notou com sabedoria, o Supermorcela não usa cuecas de licra por cima dos collants, aliás usa calças, o que mostra que em matéria de gosto está uns pontos acima. Não o vi lançar aquelas lâminas em forma de morceguinhos, o que no caso dele não me chatearia nada porque se atirasse morcelas de arroz eu ia logo apanhar para fazer com grelos cozidos, que eu tenho família em Leiria e sei do que falo.

Written by Ana Sousa Dias 30 Sep, 2015
4. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Há um norte-americano de ascendência albanesa e croata, de nome Martin Shkreli, que apareceu nas notícias por ser um artista da arte de ganhar dinheiro sem escrúpulos. Fundou uma pequena empresa e subiu em pouco tempo no negócio farmacêutico, num percurso que já foi criticado e levado a altas instâncias, mas conseguiu nunca cair na armadilha da ilegalidade. A última grande boa ideia que teve está a dar brado. Comprou a licença para comercializar o medicamento mais adequado para a toxoplasmose. É uma infeção rara que pode ter efeitos muito graves se afetar uma grávida e é perigosa em doentes imunodeprimidos. Enfim, o comprimido pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Pois então o que fez o querido Martin? Aumentou o preço de um dia para o outro, de 13,5 para 750 dólares. Nenhuma ilegalidade. É imoral, mas o que é que isso interessa? Martin acha-se uma espécie de tornado que revolve o chão que pisa e tem argumentos para o que der e vier.

Written by Ana Sousa Dias 23 Sep, 2015
5. Estalar os dedos e ficar tudo arrumado

Do que eu sempre gostei mais no filme Mary Poppins, que vi quando era criança, foi daquele truque de fazer estalar os dedos e o quarto ficar arrumado. Um sonho para qualquer criança (e para todos os pais), ver as peças de lego arrumadíssimas num voo instantâneo. Ainda hoje sei dizer supercalifragilisticexpialidocious (em português, supercalifragilisticexpialidoso, ainda assim mais curto do que anticonstitucionalissimamente, a nossa palavra mais extensa e que, já que falo nisso, esteve tão em voga nos anos recentes).

Written by Ana Sousa Dias 16 Sep, 2015
6. Como está? Tem tempo para ouvir a resposta?

Como está? Eis a pergunta que fazemos educadamente e à qual esperamos que respondam "tudo bem". Até podiam responder "tudo ótimo" mas isso seria esperar demasiado. Não está no ADN dos portugueses comuns. Uma pergunta assim desprevenida pode desencadear um pesadelo de que dificilmente nos livramos. Mais ou menos (grau um da desgraça). Vamos andando. Podia estar melhor. Dói-me aqui. Estou doente disto, daquilo. Nem imagina o que me aconteceu. Isto só a mim. E toda uma variedade de doenças, cirurgias, hospitais, um desfiar de histórias de parentes que não ligam nenhuma ou que são uns santos mas tiveram azar, de vizinhos ou colegas que são umas pestes.

Written by Ana Sousa Dias 09 Sep, 2015
7. O Que Diz Machado sobre o rutilante esférico

A tarde arrastava-se na infelicidade de não arranjar tema para a crónica. Escolher um assunto tem qualquer coisa de irracional, de amoroso, de momentâneo. Um tema é bom num dia, absurdo noutro. É porque sim ou porque não. Tomei um café, a ver se a cafeína ajudava, comi um bom--bocado, a ver se o açúcar me punha o cérebro a funcionar. Levantei-me, fui buscar água ao corredor. À minha volta choveram conselhos, sugestões - escreve sobre o Papa, o Novo Banco, não chateies. Chegaram a propor-me substituir a crónica por uma notícia para a qual não se encontrava espaço, enfim, dar uma utilidade à minha inutilidade. Saí para o sol, cruzei--me com turistas que falavam francês, esperei nos semáforos com paciência. Ocorreu-me a palavra procrastinar. Estava a procrastinar como se não houvesse amanhã (e não tivesse de escrever a crónica).

Written by Ana Sousa Dias 02 Sep, 2015
8. Atribulações de uma cliente em estado crítico

Uma pessoa acorda e as torneiras deitam um fiozinho de água pífio até ficarem secas, mudas como torneiras numa loja de ferragens. Ocorrem de imediato impropérios, mais de desespero do que de insulto, o dia começa em tragédia. Tenta-se tudo, os restos nos copos abandonados à noite, as garrafas esquecidas, o garrafão enchido meses antes para as emergências.

Written by Ana Sousa Dias 26 Aug, 2015
9. Aquele segundo em que a vida passa a ser outra coisa

Uma vez estive no meio de um acidente gravíssimo e uma das pessoas envolvidas morreu. De que é que me lembro? De olhar pelo retrovisor e ver uma carrinha branca a bater num carro que ia ultrapassar--me, os dois a voar, um deles a empurrar um outro que seguia à minha frente e depois a desaparecer, sem tocar nas árvores que acompanham a estrada. Parei sem ter sido atingida e sem bater em ninguém, intacta e perplexa. De telefone na mão, corri à procura dos carros caídos nas bermas, um para cada lado. Uma voz segura atendeu o 112 e fez-me perguntas: onde estava, quantos carros, quantas pessoas, era preciso desencarcerar alguém? Desencarcerar, que palavra brutal. A voz tranquilizou-me com essa exigência de ser factual, sem adjetivos, como se escrevesse uma notícia. Disse-me: não deixe ninguém mexer nos feridos nem mudar a posição dos carros, enquanto eu via uma dezena de homens a virar à força de braços a carrinha branca caída de lado onde se agitavam várias pessoas. Sei todos estes pormenores porque a memória mos traz, nítidos, e porque tive de repeti-los dias depois aos homens das seguradoras. Meses mais tarde fui chamada à polícia, testemunha a desempatar versões divergentes.

Written by Ana Sousa Dias 19 Aug, 2015
10. Lição de política futebolística em Maputo

Foi um momento alto da minha formação futebolística e aconteceu em Maputo. Mais precisamente, na entrada do Museu de História Natural, um lugar extraordinário. A coisa passou-se no dia 18 de maio de 2011. Havia duas razões para estar ali, perto do Hotel Cardozo com a esplanada de onde se vê o pôr-do-sol. Uma delas era o museu, edifício tipo manuelino do século XX. A outra era ir conhecer Reinata e as peças de cerâmica que molda e pinta com os dedos.

Written by Ana Sousa Dias 12 Aug, 2015
more

People

Hillary Clinton (3)
Joe Berardo (3)
Paula Rego (3)
Beatles (2)
António Lobo Antunes (2)

Locations

Lisboa (19)
Portugal (16)
Estados Unidos (6)
Paris (5)
Europa (5)

Organizations

Governo (4)
Benfica (2)
Porto (2)
OK (2)
Rádio Renascença (2)