Ferreira Fernandes

Nº de Artigos: 1571
Jornais: Diário de Notícias

1. A cambada da elite continua a morder no Trump

Donald Trump publicou no Twitter o seu desejo de que Nigel Farage, político britânico, seja o embaixador do Reino Unido em Washington. Embora hoje em dia nada possa ser dado como adquirido, o embaixador de um país é de onde vem, não é indicado pelo país para onde vai. Cabe ao seu país escolher; o outro o mais que pode é não aceitar. Era assim antigamente e mesmo com pós-verdade continua a ser. Diplomaticamente (e em diplomacia isso conta, a diplomacia) a tal sugestão de Trump é mais uma trumpitude. Tipo centenas de outras da campanha. Eu digo uma enormidade... Mas não foi bem isso que eu disse... Aliás, eu nem disse nada... Ontem, o jornal The New York Times noticiou o tolo do tweet de Trump com decibéis baixos e ouviu embaixadores a lembrar a evidência da representatividade de um embaixador. E escreveu também que Farage foi o primeiro político estrangeiro recebido pelo Trump vencedor, e mais: nesse encontro, na presença de amigos do britânico, Trump pediu-lhes para fazerem lóbi contra os parques eólicos na Escócia. Onde, por acaso, Trump tem dois campos de golfe e tem protestado por um deles ser incomodado pelas eólicas. Londres já varreu a hipótese de Farage embaixador, e a política externa americana não será, talvez, uma diplomacia de tacadas contra o vento. Mas o que me traz aqui é a vaca fria: já viram a insistência dos jornais em meterem-se com Trump?! Depois não querem que os brancos pobres se indignem.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qua, 23 Nov 2016
2. A palavra do ano é a mentira moderna

Ontem, o Oxford Dictionaries cunhou a palavra do ano: pós-verdade. Uma homenagem ao brexit e a Trump. É um adjetivo que define uma sociedade pasmada com a realidade. Espero que passe a substantivo, já. É que, se a verdade é dura, a pós-verdade, que é uma mentira, pode distinguir-se talvez melhor, pois é mole. Infiltra-se, entra-nos furtivamente. A pós-verdade é a mentira com pozinhos de perlimpimpim. A pós-verdade andou a marinar há duas décadas, a enfiar-se nas redes sociais com enormes teorias da conspiração e logo com mentirinhas. A eficácia destas era o surgimento sistemático que os facebooks permitem e incitam. Um dia, no nosso correio eletrónico: "Michelle Obama é homem." Quem morde, tem mais isco: "Nunca suspeitou por não haver fotos da gravidez dela?" De facto, pensando bem... E o anzol prende, prende, e, há um mês, lia-se uma reportagem do The Washington Post sobre uma eterna eleitora democrata, que desta vez ia votar Trump. Porquê? "Michelle Obama é homem." Pois, nunca mais se pode fazer uma campanha eleitoral sem um kit com testes para identidade de género (os partidos, pelo menos os desconfiados, deviam pedir apoio ao Comité Olímpico, que tem destes kits). O problema é que a pós-verdade é como a comichão, surge logo outra: "Prendo-a de imediato", disse Trump sobre a Hillary. E vem a seguir uma pós-verdade mais nítida: "Afinal já não a prendo." Tudo é enorme, nada é categórico. E nós deslizamos, deslizamos...

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 17 Nov 2016
3. A elite não entendeu as palmas ao Palito

Já tem uns tempos o caso do qual eu ainda carrego as culpas, a minha pessoal e de todo o sistema. Manuel Baltazar, o Palito, pegou na caçadeira e matou a mãe e a tia da ex-mulher, além de ter ferido esta e a própria filha. Depois, Baltazar partiu em fuga por 34 dias. Escondido por campos que em abril e maio ainda não oferecem fruta nem há legumes nas hortas. Espiado pelos jornais, criticado pela elite, caçado pelas polícias - foi unânime o ataque que o sistema lhe fez. Chamaram-no "assassino", só por ter assassinado, "monstro", por ter visado a filha com dois tiros, "violento", por ter abatido duas velhotas. Até o entenderam literalmente com vontade de matar, só por há anos ele andar a dizer que ia matar a ex-mulher. Enfim, Palito foi apanhado. Foi a tribunal em dia de feira em São João da Pesqueira e o povo, descia ele do jipe, saudou-o com gritos e palmas. Os comentadores - até eu, daí o meu arrependimento - não haviam entendido o asco do povo pela unanimidade que se fizera contra o Palito, cuja voz e gatilho defrontaram o establishment e o estabelecimento prisional. As televisões recolheram explicações para as palmas: eram pelo sobrevivente (a fuga fora, afinal, uma campanha de popularidade). Pura ânsia por outsiders, que os do sistema nunca entendem. Aliás, a juíza, outra do sistema, condenou-o a pena máxima. Falhou qualquer coisa na campanha de Palito, ainda não somos como lá fora. Fica para a próxima.

Escrito por Ferreira Fernandes | Ter, 15 Nov 2016
4. Afinal já não vai haver deportações em massa

Nas presidenciais 2016, o site do The Huffington Post terá sido o mais incisivo dos jornais (em papel ou online) contra Donald Trump. Todos os artigos sobre o candidato republicano terminavam sempre com uma nota de rodapé dizendo que Donald Trump fazia "sistemáticas declarações racistas, misóginas e xenófobas". Ontem, o site decidiu retirar o aviso. Lembrando embora que aquelas acusações não deixaram de ser verdadeiras, o HP não queria fazer como o próprio Trump e parte dos republicanos fizeram com a administração Obama, não lhe reconhecendo legitimidade, ao arrepio da tradição americana. "Quer gostemos ou não - e para sermos sinceros, não gostamos - ele [Donald Trump] ganhou a eleição." E o aviso vai deixar de ser publicado.

Escrito por Ferreira Fernandes | Qui, 10 Nov 2016
5. A anomalia Trump acaba ou vai passar a norma?

O Partido Republicano já pode ser declarado vencedor, qualquer que seja o desfecho da eleição de hoje. Ou porque teve uma vitória à Pirro, por ter levado um desqualificado para a Casa Branca - embora essa hipótese as sondagens, ontem, já dessem como menos provável do que parecia ao longo da semana passada. Nesse caso, aliás, a vitória nem seria bem como a do rei do Épiro, o tal Pirro que ganhou uma batalha mas ao custo de tantas baixas que ele próprio fez o balanço, assim: "Mais outra vitória como esta e estou arruinado." É que, com Trump na Casa Branca, o Partido Republicano não precisará de outra vitória pírrica, de novo erro tão clamoroso: basta este para ficar politicamente arruinado e levar consigo os Estados Unidos. Essa, a péssima vitória - uma derrota geral e de efeitos inimagináveis para a democracia e também para o Partido Republicano.

Escrito por Ferreira Fernandes | Ter, 8 Nov 2016
6. E se Donald Trump me obriga a pagar o que aprendi com ele?

O jornal The Washington Post publicou ontem um artigo com este título: "O mundo está a olhar para a América - e a aprender o que não deve fazer". Pronto, apanharam-me. Ando a tentar aprender, à escuridão que tem sido esta campanha americana, o que não se deve fazer. Alinhei já umas ideias, seja o que for que aconteça na próxima terça: um suspiro de alívio ou um susto. É que, mesmo não ganhando agora, Donald Trump, ou outro canalha por ele, voltará. E, ganhando, tenho um receio suplementar: que me obrigue a pagar o que aprendi, como ele quer que os mexicanos paguem o muro.

Escrito por Ferreira Fernandes | Dom, 6 Nov 2016
7. Este nem licenciado é

Quantos doutoramentos conseguidos simplesmente em livros e por exames seriam capazes de visualizar os tamancos com travessa de madeira que ao miúdo Germano bastou estudar com a planta dos pés?

Escrito por Ferreira Fernandes | Sáb, 5 Nov 2016
8. No dia seguinte ao saber-se do impossível

A quase centenária The New Yorker (fundada em 1925) não sai 52 vezes ao ano, o que a faria semanal; sai 47, porque em cinco edições ela é quinzenal. É, pois, uma revista sofisticada, põe os leitores a pensar até para saber se é semana de ir ao quiosque ou não. Os textos, reportagens, muita opinião e crítica, insistem no estilo - e com sucessivas revisões, não vá uma vírgula a mais. Pequenos cartoons espalham-se pelas páginas, quase sempre sem terem que ver com os artigos vizinhos - servem para espicaçar o leitor, porque o querem acordado. Mas o que mais marca a revista são as capas. Há quem as colecione para fazer sonhar uma parede do escritório. Olha-se para essas capas como um gato, depois do pequeno-almoço, olha pela janela de um arranha-céus de Nova Iorque - o que, aliás, já foi capa da revista, assinada pelo francês Sempé.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sáb, 5 Nov 2016
9. Desculpem lá a CPLP por fazer bem (2)

Como dizia eu, aqui, ontem, a Guiné Equatorial já aboliu a pena de morte há muito. Tal como Espanha, há 150 anos, o que lhe valeu uma carta célebre de Victor Hugo a elogiar. Ao contrário, continuava eu a dizer, de Portugal que ainda há pouco garroteava. E, convidando a ir ao Google confirmar, ao contrário dos países africanos de língua portuguesa, e Timor, que, todos, ainda têm pena de morte. Evidentemente, confirmo tudo... se tiverem a gentileza de lerem tudo ao contrário. Eu sei como se chama à figura de estilo (mentira pegada, dizem alguns) que empreguei escrevendo assim. Chama-se respeito pelo leitor. Para dizer "hoje está de chuva", é no consultório ao lado, ou no táxi. Aqui, é conversa interessada. Dito isto, chamei a atenção para o essencial: como é que todas as antigas colónias portuguesas, todas, aboliram a pena de morte e isso não é assinalado e enaltecido? Nem agora, esta semana, quando à comunidade que nos une, a CPLP, acontece-lhe protagonizar esse ato de civilização que é trazer outro país, a Guiné Equatorial, para a civilização. Esta semana, a CPLP demonstrou que é mesmo uma comunidade e o que a une é mais do que a grande língua. Alguma coisa se escreveu sobre isso, mas só água-chilra. E, no entanto, Angola e Moçambique, com recentes guerras civis, dão uma lição que, por exemplo, os Estados Unidos não podem dar. Alguns leitores dizem que, para entenderem, lhes dei muito trabalho. Obrigado, estou cá para isso.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sex, 4 Nov 2016
10. Desculpem lá a CPLP por fazer bem (2)

Como dizia eu, aqui, ontem, a Guiné Equatorial já aboliu a pena de morte há muito. Tal como Espanha, há 150 anos, o que lhe valeu uma carta célebre de Victor Hugo a elogiar. Ao contrário, continuava eu a dizer, de Portugal que ainda há pouco garroteava. E, convidando a ir ao Google confirmar, ao contrário dos países africanos de língua portuguesa, e Timor, que, todos, ainda têm pena de morte. Evidentemente, confirmo tudo... se tiverem a gentileza de lerem tudo ao contrário. Eu sei como se chama à figura de estilo (mentira pegada, dizem alguns) que empreguei escrevendo assim. Chama-se respeito pelo leitor. Para dizer "hoje está de chuva", é no consultório ao lado, ou no táxi. Aqui, é conversa interessada. Dito isto, chamei a atenção para o essencial: como é que todas as antigas colónias portuguesas, todas, aboliram a pena de morte e isso não é assinalado e enaltecido? Nem agora, esta semana, quando à comunidade que nos une, a CPLP, acontece-lhe protagonizar esse ato de civilização que é trazer outro país, a Guiné Equatorial, para a civilização. Esta semana, a CPLP demonstrou que é mesmo uma comunidade e o que a une é mais do que a grande língua. Alguma coisa se escreveu sobre isso, mas só água-chilra. E, no entanto, Angola e Moçambique, com recentes guerras civis, dão uma lição que, por exemplo, os Estados Unidos não podem dar. Alguns leitores dizem que, para entenderem, lhes dei muito trabalho. Obrigado, estou cá para isso.

Escrito por Ferreira Fernandes | Sex, 4 Nov 2016
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